Defesa dos réus tenta desqualificar a vítima
O julgamento dos três primeiros réus pelo assassinato do advogado Roberto Zampieri, ocorrido em 5 de dezembro de 2023, atingiu um ponto de alta tensão no Tribunal do Júri de Cuiabá. Durante a fase de debates, a assistência de acusação, representada pelo vice-presidente da OAB-MT, Giovane Santin, confrontou diretamente a estratégia adotada pelas defesas dos acusados. Desde o início da sessão, na terça-feira (29), advogados de Antônio Gomes da Silva, apontado como executor, e do coronel do Exército Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, acusado de financiar o crime, têm buscado desqualificar a figura da vítima.
A tese central da defesa sustenta que Zampieri, cujo nome foi envolvido em escândalos de corrupção após o crime, teria praticado atos ilícitos junto a magistrados, o que, segundo os defensores, justificaria o homicídio. O advogado de Antônio, Nilton Ribeiro, chegou a classificar seu cliente como um “justiceiro” que agiu por uma suposta missão moral. Em depoimento, o réu afirmou que Zampieri era um “corrupto” e que o enviou “para o inferno”. A defesa do coronel Caçadini, por sua vez, comparou a vítima a figuras polêmicas do cenário financeiro, buscando criar um estigma sobre a trajetória do advogado.
O contraponto da acusação e a dor da família
Em um momento de forte carga emocional, Giovane Santin rebateu as alegações, dirigindo-se diretamente à mãe da vítima, Lourdes Coelho Zampieri, que acompanhava o julgamento ao lado da viúva, Adriana Ribeiro Garcia Bernardes Zampieri, e do filho de 11 anos. Para Santin, a tentativa de justificar um assassinato com base em supostos comportamentos da vítima é uma estratégia covarde e perigosa para o Estado Democrático de Direito.
“Ao contrário do que foi dito aqui, covardemente, a vida do doutor Roberto Zampieri importa”, declarou o assistente de acusação. Ele argumentou que, juridicamente, a única justificativa aceitável para a morte de alguém é a legítima defesa, rechaçando a ideia de que a corrupção ou qualquer outra conduta possa servir como salvo-conduto para o cometimento de um homicídio. Santin traçou um paralelo crítico, comparando a tese da defesa à falaciosa justificativa de que uma vítima de estupro seria culpada pelo crime devido à roupa que vestia.
Contexto das investigações e o crime
O assassinato de Roberto Zampieri ganhou repercussão nacional após a perícia no celular do advogado revelar mensagens que apontavam para um esquema de venda de sentenças no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). As investigações, que também alcançaram o Superior Tribunal de Justiça (STJ), culminaram na deflagração da Operação Sisamines pela Polícia Federal.
O crime ocorreu quando Zampieri deixava seu escritório em um Fiat Strada. Imagens de câmeras de segurança mostraram o momento em que o executor, com o rosto descoberto e utilizando um abafador de som, disparou cerca de 10 vezes contra o advogado. Segundo a denúncia do Ministério Público, o coronel Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas teria financiado o ato com o pagamento de R$ 40 mil, enquanto Hedilerson Fialho Martins Barbosa teria fornecido a arma e auxiliado na logística. Outros envolvidos no caso ainda aguardam julgamento.
Justiça e o papel do Tribunal do Júri
O embate entre a tese de “justiçamento” e a defesa da vida humana coloca em xeque a imparcialidade do julgamento. Enquanto a defesa busca desviar o foco da materialidade do crime para a moralidade da vítima, a acusação insiste que o Conselho de Sentença deve se ater aos fatos e à lei. O caso, que segue em desdobramento, é um marco na análise de crimes contra advogados no país.
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