Em um cenário onde a disputa eleitoral em Mato Grosso parece ferver nas redes sociais, mas mantém uma postura contida nas ruas, surge um questionamento fundamental: o que esse silêncio do eleitor realmente significa? A jornalista, socióloga e advogada Andhressa Sawaris Barboza, especialista em comunicação política, aponta que esse contraste não deve ser confundido com indiferença. Pelo contrário, pode indicar uma estratégia de sobrevivência em um ambiente de alta polarização, onde expressar opiniões divergentes tornou-se um risco social.
A fragilidade do debate público e a cultura do recorte
A eleição, que abrange cargos para o governo, Senado e legislativos estadual e federal, deveria ser o momento máximo de troca de ideias e propostas. No entanto, o debate público tem sido substituído por uma disputa de narrativas e impressões. Quando questionamentos legítimos são feitos sobre a composição de chapas ou a presença de nomes investigados em cargos de suplência, a resposta recorrente das campanhas é classificar qualquer indagação como um ataque eleitoral, fechando as portas para o diálogo transparente.
Essa dinâmica é potencializada pelo uso estratégico de vídeos editados. Nesses recortes, perguntas inconvenientes são suprimidas, enquanto respostas ganham trilhas sonoras e edições que favorecem o candidato, retirando o contexto necessário para uma análise crítica. O problema não reside na ferramenta digital, mas na transformação desses fragmentos em verdades absolutas, onde o que importa é a eficácia do corte na tela e não a profundidade do projeto político apresentado ao eleitor.
O ressentimento como ferramenta de campanha
A comunicação política contemporânea tem se mostrado extremamente eficiente em produzir sentimentos, com destaque para o ressentimento. Essa emoção transforma frustrações reais em uma desconfiança permanente em relação ao outro, dificultando a análise objetiva dos fatos. Quando uma verdade incômoda surge sobre um candidato, ela é rapidamente rotulada como “armação”, enquanto suspeitas sobre o adversário são tratadas como condenações definitivas, ignorando o devido processo legal e a necessidade de comprovação.
Para um estado que se prepara para definir seus representantes, essa economia de debate é um custo elevado. A política, que deveria exigir convicção baseada em fatos, acaba oferecendo pouco espaço para o exame detalhado das propostas. A complexidade dos problemas regionais é, muitas vezes, reduzida a frases de efeito que não resolvem as demandas da população, mas que inflamam a base eleitoral.
A cautela necessária com as pesquisas eleitorais
A polarização também exige um olhar crítico sobre as pesquisas de intenção de voto. O caso de Cuiabá, na véspera do primeiro turno de 2024, serve como um lembrete importante: a pesquisa Quaest indicava Eduardo Botelho à frente, mas o resultado das urnas foi distinto, com o candidato terminando em terceiro lugar. Esse episódio reforça que levantamentos são retratos momentâneos e não previsões imutáveis do resultado final.
O silêncio do eleitor, portanto, pode ser interpretado como um misto de cansaço, prudência ou um processo de reflexão profunda. Ele não pertence aos candidatos que buscam interpretá-lo como apoio imediato. A decisão final, que ocorrerá nas urnas, revelará se Mato Grosso optou pelo conforto dos recortes que alimentam o ressentimento ou se escolheu o caminho, por vezes mais difícil, de exigir respostas completas e compromissos reais. O verdadeiro veredito só será conhecido após a abertura das urnas.
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