Avião com cocaína e dois corpos em decomposição pode ter caído há cerca de 60 dias em zona rural de MT
JBNews
Por Emerson Teixeira
TRÁFICO AÉREO
A descoberta de uma aeronave destruída em uma propriedade rural de Reserva do Cabaçal, no oeste de Mato Grosso, abriu uma nova frente de investigação sobre a atuação do narcotráfico internacional na região de fronteira. Em meio aos destroços, equipes da Polícia Militar localizaram 78 tabletes de cloridrato de cocaína e os corpos de duas pessoas, ainda sem identificação oficial, em um caso cercado por mistérios e fortes indícios de que a cena do acidente foi alterada antes da chegada das autoridades.
O caso começou a ser desvendado após uma denúncia anônima informar a queda de um avião entre as comunidades Jibóia e Lajeado, na zona rural do município. Ao chegarem ao local indicado, os policiais encontraram a aeronave completamente destruída. Durante as buscas, localizaram os dois corpos entre os destroços e recuperaram toda a carga de cocaína que permanecia espalhada na área.
As primeiras informações levantadas pelas forças de segurança apontam que a aeronave pode ter permanecido no local por aproximadamente 60 dias antes de ser encontrada. Caso essa hipótese seja confirmada pelos laudos periciais, o longo intervalo entre a queda e a localização do avião poderá se tornar uma das principais peças da investigação, já que aumenta significativamente a possibilidade de outras pessoas terem estado no local antes da chegada das equipes policiais. Esse detalhe reforça a suspeita de que integrantes da organização criminosa responsável pelo transporte da droga tenham retornado para retirar equipamentos de navegação, documentos, aparelhos eletrônicos, armas, dinheiro, celulares, GPS e até mesmo parte da carga ilícita, numa tentativa de eliminar vestígios capazes de identificar os responsáveis pela operação.
A Polícia Militar constatou que a área apresentava claros sinais de adulteração. A cena do acidente não estava preservada, circunstância que dificultará parte do trabalho pericial e exigirá uma reconstrução detalhada da dinâmica dos fatos. A Polícia Federal deverá utilizar laudos técnicos, imagens de satélite, perícias e outras diligências para identificar quem passou pelo local antes da chegada das autoridades e qual material pode ter sido retirado.
Os dois corpos encontrados entre os destroços estavam em avançado estado de decomposição, impossibilitando qualquer identificação imediata. Os restos mortais foram encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML), onde passarão por exames periciais, incluindo análises odontológicas e, se necessário, exames de DNA. Até o momento, não existe confirmação oficial sobre quem são as vítimas, se ocupavam as funções de piloto e copiloto ou se havia outros passageiros na aeronave no momento da queda.
A identificação das vítimas é considerada uma das etapas mais importantes da investigação. Somente após a conclusão dos exames será possível confirmar nacionalidade, antecedentes e eventual ligação com organizações criminosas. Até agora, nenhuma autoridade confirmou que os mortos possuíam antecedentes criminais ou pertenciam a alguma facção.
Além da identificação dos ocupantes, a Polícia Federal pretende esclarecer de onde a aeronave decolou, qual seria seu destino final, quem financiava o transporte da cocaína, quem era o proprietário do avião e qual organização criminosa comandava a logística da operação. Também será analisado o prefixo da aeronave, caso possa ser recuperado durante os trabalhos periciais, para verificar seu histórico de utilização, eventual registro e possíveis alterações clandestinas.
Outro ponto que desperta atenção dos investigadores é a quantidade de droga transportada. Os 78 tabletes de cloridrato de cocaína apreendidos foram recolhidos e encaminhados para a Delegacia da Polícia Federal em Cáceres, onde serão submetidos aos procedimentos legais. A quantidade reforça a hipótese de que a aeronave fazia parte de uma estrutura organizada de tráfico internacional, utilizando Mato Grosso como corredor logístico para distribuição da droga em território brasileiro.
A região oeste do Estado é considerada estratégica pelas forças de segurança devido à proximidade com a Bolívia, um dos principais produtores mundiais de cocaína. As extensas áreas rurais, a baixa densidade populacional e a existência de pistas clandestinas fazem da região uma das principais rotas utilizadas por organizações criminosas para o transporte aéreo de entorpecentes. Nos últimos anos, operações da Polícia Federal e das forças estaduais têm apreendido aeronaves, drogas e combustível destinados a esse tipo de atividade ilícita, demonstrando que o modal aéreo continua sendo amplamente utilizado pelas quadrilhas.
Paralelamente ao inquérito criminal, os laudos da Perícia Oficial e Identificação Técnica (Politec) deverão indicar se a aeronave caiu em decorrência de falha mecânica, pane, condições climáticas adversas, excesso de peso provocado pela carga transportada ou outro fator que possa ter contribuído para o acidente. A análise técnica também buscará determinar se houve explosão durante o impacto ou se o incêndio ocorreu após a colisão com o solo.
As investigações ainda deverão responder uma série de perguntas que permanecem sem solução: quem eram os ocupantes da aeronave? O avião realmente transportava apenas os 78 tabletes encontrados ou parte da carga foi retirada antes da chegada da polícia? Quem alterou a cena do acidente? Houve sobreviventes resgatados por integrantes da organização criminosa? De onde partiu o voo e qual seria o destino final da droga?
Enquanto essas respostas não surgem, o caso permanece envolto em mistério e passa a integrar uma das mais complexas investigações recentes sobre o tráfico aéreo em Mato Grosso. A Polícia Federal concentra os trabalhos para reconstruir toda a logística da operação criminosa, identificar os envolvidos e esclarecer se a queda da aeronave interrompeu apenas mais um transporte de cocaína ou revelou uma estrutura ainda maior de atuação do narcotráfico internacional na faixa de fronteira brasileira.
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