Ausência de prefeitos ofusca festa de Wellington e amplia dúvidas sobre fidelidade da base
JB News
Por Nayara Cristina
A convenção estadual do Partido Liberal (PL), realizada nesta quarta-feira (22), em Cuiabá, tinha todos os ingredientes para marcar uma demonstração de força da legenda na abertura oficial da corrida eleitoral de 2026. O partido homologou a candidatura do senador Wellington Fagundes ao Governo de Mato Grosso, confirmou José Medeiros na disputa ao Senado e oficializou as chapas proporcionais que disputarão vagas na Assembleia Legislativa e na Câmara Federal. Entretanto, o que deveria ser uma grande celebração política acabou tendo outro protagonista: a ausência de prefeitos da própria sigla.
Muito mais do que os discursos e os atos formais da convenção, o comentário dominante entre lideranças políticas foi o número de gestores municipais do PL que deixaram de comparecer ao evento. A estimativa que circulou nos bastidores apontou que cerca de 18 prefeitos liberais não participaram da convenção, justamente no momento em que o partido buscava transmitir unidade e musculatura para enfrentar a disputa pelo Palácio Paiaguás.

A leitura política foi imediata. Para interlocutores do meio político, a ausência dos prefeitos reforçou a percepção de que parte significativa das lideranças municipais do PL mantém alinhamento administrativo com o governador Otaviano Pivetta e tende a caminhar ao lado do projeto de reeleição do atual chefe do Executivo estadual, ainda que muitos evitem assumir publicamente esse posicionamento neste momento.
A avaliação é de que boa parte dos prefeitos vive uma realidade administrativa que impõe cautela. Os municípios dependem de convênios, investimentos, obras, programas estaduais e parcerias institucionais, o que faz com que muitos gestores prefiram preservar a relação com o Governo do Estado antes de antecipar qualquer definição eleitoral.
Essa realidade ficou evidente durante toda a convenção. Enquanto o partido procurava demonstrar unidade em torno da candidatura de Wellington Fagundes, os bastidores mostravam uma preocupação crescente com a dificuldade de reunir integralmente sua própria base política.
O assunto acabou sendo enfrentado pelo presidente estadual do PL, Ananias Filho. Diferentemente do discurso adotado meses atrás, quando integrantes da legenda chegaram a defender medidas duras contra prefeitos que não acompanhassem o projeto partidário, a direção passou a adotar uma postura conciliadora.
Durante as entrevistas concedidas após a convenção, Ananias afirmou acreditar que os prefeitos “entrarão no eixo” ao longo da campanha, demonstrando confiança de que a estrutura partidária conseguirá reunir novamente suas lideranças municipais. O dirigente também evitou qualquer discurso de punição ou enfrentamento, deixando claro que o momento é de diálogo e construção política.
A mudança de postura foi interpretada como um reconhecimento da realidade enfrentada pelo partido. Se antes havia o discurso de cobrança por fidelidade partidária, agora prevalece a compreensão de que uma postura mais rígida poderia ampliar ainda mais o desgaste interno e estimular novas aproximações com o grupo governista.
Entre todas as ausências, a da prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti. uma das principais liderança feminina do PL em Mato Grosso e administrando a segunda maior cidade do Estado, sua presença era considerada estratégica para simbolizar unidade.
Após o evento, a prefeita explicou que comunicou previamente ao senador Wellington Fagundes que não conseguiria participar da convenção em razão das inúmeras demandas administrativas enfrentadas pelo município.
Segundo ela, o momento vivido por Várzea Grande não permitia sua saída da prefeitura. Flávia afirmou que o município atravessa uma série de urgências administrativas e declarou que “não tinha clima” para deixar a administração e participar do ato político, priorizando reuniões e ações voltadas à busca de soluções para a cidade.
A justificativa, entretanto, não encerrou as especulações políticas.
Nos bastidores, permanece a avaliação de que Flávia Moretti mantém uma relação institucional cada vez mais próxima do governador Otaviano Pivetta, especialmente diante da crise financeira enfrentada pelo município, do problema histórico do abastecimento de água, da situação do Departamento de Água e Esgoto (DAE), do elevado volume de precatórios e da necessidade permanente de apoio do Governo do Estado para execução de obras e investimentos.
Até hoje, a prefeita nunca declarou apoio público à candidatura de Wellington Fagundes. O próprio senador reconheceu durante a convenção que ainda não possui o apoio oficial da gestora várzea-grandense, reforçando a percepção de que parte importante do PL ainda não está plenamente alinhada ao projeto eleitoral do partido.
A situação de Flávia também evidencia um fenômeno que vem sendo observado em diversas regiões do Estado. Embora filiados ao PL, vários prefeitos mantêm uma relação política e administrativa próxima ao Palácio Paiaguás, evitando romper pontes com um governo que continuará conduzindo investimentos estaduais até o processo eleitoral.
Outro ponto que chamou atenção foi que a convenção acabou assumindo um caráter predominantemente burocrático. As homologações das chapas proporcionais transcorreram sem qualquer surpresa, consolidando os nomes que disputarão cadeiras na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. Porém, politicamente, o evento acabou sendo medido muito mais pela quantidade de ausências do que pelo número de candidaturas homologadas.
Os discursos também seguiram uma linha de confiança e de mobilização da militância, mas acabaram ficando em segundo plano diante da leitura política produzida pela composição do público presente. Entre deputados, vereadores, dirigentes partidários e pré-candidatos, a pergunta mais repetida era justamente sobre onde estavam os prefeitos da legenda.

Essa percepção acabou transformando a convenção em um importante termômetro da sucessão estadual. Se por um lado o PL oficializou seu projeto para disputar o Governo de Mato Grosso, por outro ficou evidente que Wellington Fagundes ainda terá pela frente uma das tarefas mais difíceis da campanha: consolidar o apoio efetivo da própria base municipalista do partido.
Nos próximos meses, a direção estadual deverá intensificar o diálogo com os prefeitos, buscando reduzir resistências e impedir que novas lideranças migrem para o projeto de reeleição de Otaviano Pivetta. Afinal, em uma eleição estadual, o apoio dos gestores municipais representa muito mais do que presença em um evento partidário. Ele significa estrutura política, formação de palanques, mobilização regional e capilaridade eleitoral, fatores que podem ser decisivos na disputa pelo comando de Mato Grosso.
No fim da convenção, a principal mensagem deixada pela política estadual não veio dos discursos realizados no palco, mas das cadeiras vazias de prefeitos m, tudo como às principais lideranças municipais do PL. E, na linguagem da política, ausências também costumam falar alto.
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