Celular de Zampieri expõe elo entre lobista de MT, esposa de juiz federal e decisões sob suspeita no STJ
JB News
Por Emerson Teixeira
Investigação da Polícia Federal aponta atuação conjunta para favorecer processos ligados ao ex-senador Luiz Estêvão, identifica transferência de R$ 250 mil após decisão favorável e leva STF a autorizar apuração formal contra o ministro Moura Ribeiro
O conteúdo armazenado nos aparelhos e nas contas digitais vinculadas ao advogado Roberto Zampieri, assassinado a tiros em Cuiabá no fim de 2023, abriu uma nova e sensível frente de investigação dentro do Judiciário brasileiro. A Polícia Federal encontrou mensagens que indicariam uma conexão entre o lobista mato-grossense Andreson de Oliveira Gonçalves e a advogada Aline Gonçalves de Sousa, esposa do juiz federal César Jatahy, integrante do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em articulações relacionadas a processos que tramitavam no Superior Tribunal de Justiça.
Os investigadores apuram a suspeita de que decisões judiciais tenham sido negociadas para favorecer o empresário e ex-senador Luiz Estêvão, proprietário do Grupo OK e do portal Metrópoles. As informações constam em relatório da Polícia Federal revelado pela Folha de S.Paulo e encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, onde o inquérito tramita sob a relatoria do ministro Cristiano Zanin.
A documentação produzida pela PF levou Zanin a autorizar, em maio de 2026, a inclusão formal do ministro Paulo Moura Ribeiro, do STJ, nas investigações. Ele é o primeiro integrante da Corte Superior a passar oficialmente à condição de investigado no inquérito aberto no Supremo para apurar uma suposta rede de venda de decisões, acesso privilegiado a processos e circulação antecipada de informações internas de gabinetes.
Até então, as suspeitas estavam concentradas principalmente na atuação de lobistas, advogados, empresários e antigos servidores do Superior Tribunal de Justiça. O avanço sobre um ministro em exercício amplia a dimensão institucional do caso e coloca a Polícia Federal diante da tarefa de esclarecer se as decisões questionadas resultaram efetivamente de interferências criminosas ou se os investigados apenas exploravam nomes, contatos e informações do tribunal para vender uma influência que não possuíam.
De acordo com a investigação, Andreson Gonçalves, atualmente em prisão domiciliar em Mato Grosso, teria atuado para obter resultados favoráveis ao Grupo OK em processos sob a relatoria de Moura Ribeiro. A PF sustenta que ele não agia sozinho. Conversas encontradas pelos peritos indicariam que a advogada Aline Gonçalves de Sousa também participava das tratativas e estratégias envolvendo ações judiciais de interesse de Luiz Estêvão.
Aline é casada com César Jatahy, juiz federal que integra o TRF-1, tribunal sediado em Brasília e responsável por julgar processos federais provenientes do Distrito Federal e de vários estados. Até o momento, as informações divulgadas não indicam que o magistrado tenha sido incluído formalmente como investigado. O elo apontado no relatório diz respeito à atuação profissional atribuída à advogada e às conversas mantidas com Andreson.
Segundo a Polícia Federal, uma análise preliminar dos dados digitais mostrou que Andreson e Aline teriam atuado conjuntamente, de maneira considerada suspeita pelos investigadores, em processos do ex-senador que estavam no gabinete do ministro Moura Ribeiro. A corporação pediu autorização para aprofundar a perícia e examinar integralmente mensagens, documentos, registros financeiros e arquivos armazenados na nuvem.
“As informações a serem analisadas não apenas esclarecem o que já está sendo apurado, como evidenciam a ocorrência de crimes análogos vinculados a processos em curso no gabinete do ministro Moura Ribeiro”, registrou a Polícia Federal no relatório remetido ao Supremo.
Um dos episódios considerados mais relevantes pelos investigadores envolve uma decisão proferida em 2021 em benefício do Grupo OK. Durante as conversas com Roberto Zampieri, Andreson teria encaminhado uma captura de tela contendo uma troca de mensagens com Luiz Estêvão e informações sobre o andamento do processo no STJ.
No diálogo reproduzido pela investigação, o empresário teria sido informado sobre o resultado favorável, respondido com uma mensagem de congratulação e perguntado se Andreson conseguiria obter a íntegra da decisão. Para a Polícia Federal, o conteúdo sugere que o lobista acompanhava o caso de maneira privilegiada e apresentava a Zampieri provas de que possuía acesso ao andamento processual e ao resultado produzido pelo gabinete.
O dado financeiro que chamou a atenção dos investigadores surgiu no dia seguinte à decisão. Conforme o relatório, uma empresa vinculada a Andreson transferiu R$ 250 mil para a conta bancária de Roberto Zampieri. A proximidade temporal entre o resultado judicial e a movimentação financeira passou a ser analisada como possível elemento de conexão entre o pagamento e a decisão favorável.
A transferência, isoladamente, não comprova a compra de uma decisão. No entanto, para a PF, sua ocorrência logo após o resultado positivo, somada às mensagens e aos registros de acompanhamento do processo, justifica o aprofundamento das diligências para identificar a origem, a finalidade e o destino efetivo do dinheiro.
Os investigadores pretendem esclarecer se os R$ 250 mil representavam honorários advocatícios, pagamento por outro negócio, remuneração pela intermediação do processo ou parte de um eventual esquema de compra de influência e decisões judiciais. Também será necessário verificar se o valor permaneceu com Zampieri ou se foi posteriormente dividido ou repassado a terceiros.
O assassinato do advogado mato-grossense tornou-se, de forma indireta, o ponto de partida de uma das investigações mais delicadas envolvendo o STJ. Zampieri foi executado a tiros em dezembro de 2023, quando deixava seu escritório no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá. A investigação sobre o homicídio levou à apreensão do telefone e ao acesso a arquivos guardados na nuvem.
Ao analisar o material, os investigadores encontraram milhares de mensagens entre Zampieri e Andreson. O conteúdo apontava para negociações envolvendo processos no STJ, supostos pagamentos, acesso antecipado a minutas, contatos com servidores e previsões de resultados judiciais que, em determinados episódios, teriam posteriormente se confirmado.
A apuração sobre o suposto comércio de decisões passou, então, a seguir um caminho próprio, separado da investigação sobre os mandantes e executores do assassinato. O material digital revelou uma estrutura que, conforme a hipótese da Polícia Federal e da Procuradoria-Geral da República, atuaria para transformar informações internas e decisões judiciais em mercadoria.
Em conversas já incorporadas ao inquérito, Andreson teria demonstrado conhecimento prévio sobre textos que posteriormente seriam publicados pelo tribunal. Há diálogos nos quais ele afirmava que determinadas decisões sairiam com conteúdo idêntico às minutas encaminhadas antecipadamente a Zampieri. Para os investigadores, esse comportamento reforçaria a suspeita de acesso indevido a documentos produzidos dentro dos gabinetes.
A investigação não parte apenas da hipótese de que ministros tenham vendido diretamente decisões. Uma das linhas apuradas é a existência de uma rede formada por intermediários e servidores, com acesso a minutas, votos, despachos e informações sigilosas. Esse material poderia ser usado para antecipar resultados, orientar estratégias jurídicas e convencer empresários e advogados de que o grupo possuía influência sobre os julgamentos.
Outra possibilidade considerada é que os intermediários tenham usado o nome de ministros e assessores para cobrar dinheiro sem que as autoridades citadas soubessem da negociação. A Polícia Federal tenta separar a influência real da influência alegada e identificar quem produzia, repassava, recebia e negociava as informações.
No caso do gabinete de Moura Ribeiro, a investigação também localizou referências a transferências destinadas a um antigo funcionário que trabalhou com o ministro. Segundo os registros divulgados, o servidor atuou como assistente de plenário entre janeiro e junho de 2019 e permaneceu no tribunal até 2021.
Moura Ribeiro declarou, por meio de sua assessoria, desconhecer a existência de investigação instaurada sobre decisões proferidas por ele. O ministro ressaltou que possui mais de quatro décadas de magistratura e classificou como completamente improcedente qualquer tentativa de associá-lo a práticas criminosas.
O magistrado afirmou ainda que o ex-servidor mencionado nos documentos já havia trabalhado em outro gabinete antes de passar por sua equipe. Segundo a manifestação, o funcionário foi exonerado da função após a identificação de uma atuação irregular, por determinação do próprio ministro.
A inclusão de Moura Ribeiro na investigação não representa acusação formal, denúncia ou condenação. A medida autoriza a Polícia Federal a realizar diligências voltadas a esclarecer sua eventual relação com os fatos e a origem das decisões e informações que aparecem nas conversas dos investigados.
O foro competente para investigar ministros do Superior Tribunal de Justiça é o Supremo Tribunal Federal. Por essa razão, as diligências dependem de autorização do relator do inquérito, ministro Cristiano Zanin, e são acompanhadas pela Procuradoria-Geral da República.
A PGR apresentou, em maio de 2026, denúncia contra nove pessoas por suposta participação no esquema. Andreson Gonçalves e a esposa dele, Mirian Ribeiro, estão entre os denunciados. Também foram acusados antigos servidores do STJ, entre eles um ex-funcionário que passou por diferentes gabinetes e um ex-chefe de gabinete da ministra Isabel Gallotti.
Naquele momento, nenhum ministro do STJ havia sido denunciado e a peça apresentada pela Procuradoria-Geral da República não atribuía formalmente crimes aos integrantes da Corte. A autorização posterior para investigar Moura Ribeiro representa uma etapa distinta, destinada a verificar se existem elementos suficientes para responsabilização ou se as suspeitas serão afastadas.
Andreson foi preso durante uma operação da Polícia Federal deflagrada em 2024, mas atualmente cumpre prisão domiciliar em Mato Grosso. Ele é apontado nas investigações como um dos principais operadores da suposta rede de influência, responsável por manter contato com advogados, empresários e pessoas que teriam acesso aos gabinetes do tribunal.
A defesa de Andreson e Mirian nega a prática de ilegalidades e sustenta que ainda não existem elementos conclusivos sobre eventual participação do ministro. O advogado Eugênio Pacelli, responsável pela defesa do casal, afirmou que seria precipitada qualquer conclusão e criticou o que considera uma tentativa de manter o caso sob a jurisdição do Supremo.
A defesa da advogada Aline Gonçalves de Sousa também rejeitou as suspeitas. Segundo seus representantes, o relatório não descreve conduta ilícita praticada por ela. A defesa criticou a divulgação de informações parciais e afirmou que a exposição das suspeitas poderia inflamar a opinião pública e interferir na análise das autoridades responsáveis pelo caso.
Luiz Estêvão declarou que não teve acesso ao relatório da Polícia Federal e, por isso, não comentaria o conteúdo da investigação. O empresário foi procurado após a divulgação de que processos de interesse do Grupo OK aparecem nas mensagens analisadas.
Ex-senador pelo Distrito Federal, Luiz Estêvão foi condenado pelos crimes de corrupção ativa, peculato e estelionato em processo relacionado ao desvio de recursos da construção do Fórum Trabalhista de São Paulo. Ele começou a cumprir pena em 2016, passou ao regime semiaberto em 2019 e ao regime aberto, com prisão domiciliar, em 2021. Posteriormente, foi beneficiado pelo indulto natalino editado em 2022 pelo então presidente Jair Bolsonaro.
A presença do nome do empresário no material não significa, por si só, que ele tenha comprado decisões. A investigação deverá determinar se Luiz Estêvão tinha conhecimento de pagamentos ilícitos, se contratou intermediários para influenciar julgamentos ou se as conversas representam apenas relatos produzidos pelos próprios lobistas.
Também será apurado qual era o papel de Roberto Zampieri nas negociações. As mensagens indicam que ele mantinha contato frequente com Andreson, recebia informações sobre processos, discutia valores e, em alguns casos, comemorava resultados alcançados no STJ. A movimentação de R$ 250 mil identificada após a decisão relacionada ao Grupo OK tornou-se um dos principais rastros financeiros dessa nova frente investigativa.
As autoridades deverão cruzar os diálogos com extratos bancários, contratos, procurações, notas fiscais, registros de acesso aos sistemas judiciais e movimentações internas dos gabinetes. A intenção é reconstruir o caminho percorrido por cada informação e identificar quem teve acesso às minutas antes da divulgação oficial.
A análise também poderá revelar se o caso do Grupo OK foi um episódio isolado ou parte de um mecanismo mais amplo e permanente de negociação de decisões. O relatório da PF indica a existência de fatos semelhantes associados a outros processos em tramitação no gabinete de Moura Ribeiro, razão pela qual os investigadores pediram autorização para ampliar a perícia.
Os documentos conhecidos até agora descrevem um ambiente no qual informações processuais sigilosas poderiam circular fora dos canais oficiais, chegando às mãos de intermediários antes de serem disponibilizadas às partes e ao público. Caso essa hipótese seja confirmada, o esquema teria causado não apenas prejuízo às partes adversárias, mas uma grave ruptura da igualdade processual e da credibilidade do sistema de Justiça.
Apesar da gravidade dos indícios, a investigação ainda está em andamento. Cabe à Polícia Federal reunir provas, à Procuradoria-Geral da República decidir sobre eventuais novas acusações e ao Supremo avaliar a legalidade das diligências e o futuro do inquérito. Todos os citados têm direito à ampla defesa e devem ser considerados inocentes até eventual condenação definitiva.
O que começou com a perícia no celular de um advogado assassinado em Cuiabá transformou-se em uma investigação que alcança o núcleo de uma das cortes mais importantes do país. As mensagens, os pagamentos e os registros digitais deixados por Roberto Zampieri colocaram sob escrutínio relações mantidas entre lobistas, advogados, empresários e pessoas ligadas ao Judiciário.
Agora, a PF tenta responder à pergunta central do caso: os interlocutores apenas comercializavam a promessa de influência ou realmente conseguiram interferir na produção de decisões do Superior Tribunal de Justiça? A resposta dependerá do rastreamento do dinheiro, da identificação de quem vazou as informações e da comprovação de quem, dentro ou fora dos gabinetes, participou das articulações. (Folha de S.Paulo)
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