Julgamento revela “cardápio da morte”, e mensagem suspeita de desembargador após execução de advogado em Cuiabá


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JB News

Por Emerson Teixeira

O primeiro dia do julgamento dos acusados pela execução do advogado Roberto Zampieri, realizado nesta terça-feira (28), no Tribunal do Júri de Cuiabá, foi marcado por uma série de revelações feitas pela Polícia Federal que reforçam a tese de que o crime fazia parte de uma estrutura criminosa organizada. Durante o depoimento do delegado Marco Bontempo, vieram à tona detalhes sobre um suposto “cardápio da morte”, mensagens trocadas entre os investigados, negociações para aquisição de armamentos e até uma mensagem enviada ao celular da vítima poucos minutos após o assassinato pelo desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, Sebastião de Moraes Filho.

Segundo o delegado, a última mensagem recebida no telefone de Roberto Zampieri chegou cerca de cinco minutos após sua execução, ocorrida em 5 de dezembro de 2023, no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá. Conforme relatado em plenário, o conteúdo possuía tom de despedida e chamou a atenção dos investigadores porque foi enviado antes mesmo de a morte do advogado se tornar pública.

Questionado pela defesa dos réus, Marco Bontempo afirmou que a comunicação passou a integrar uma das linhas de investigação da Polícia Federal por despertar estranheza logo no início das apurações. O delegado explicou que a corporação trabalhou com diversas hipóteses para compreender o contexto da mensagem e a relação entre a vítima e o então desembargador.

Outro ponto que ganhou destaque durante o depoimento foi a apresentação de um documento apreendido na residência do coronel reformado do Exército Etevaldo Luiz Caçadini Devargas, apontado pelo Ministério Público como um dos articuladores da execução de Zampieri. De acordo com a Polícia Federal, o material descreve a estrutura de uma suposta organização denominada C4, detalhando funções de seus integrantes, logística operacional, armamentos e estratégias utilizadas para a prática de homicídios sob encomenda.

Conforme o delegado, o documento apresenta um verdadeiro plano de funcionamento da organização, prevendo desde equipamentos de apoio e veículos até a utilização de garotas de programa para obtenção de informações e monitoramento de possíveis vítimas antes da execução dos crimes.

O trecho que mais chamou a atenção dos jurados foi uma tabela contendo valores atribuídos à execução de diferentes perfis de alvos. Durante o depoimento, Marco Bontempo classificou o material como um verdadeiro “cardápio da morte”.

Segundo o delegado, o documento estabelecia preços distintos para os assassinatos: R$ 50 mil para uma pessoa comum, R$ 100 mil para juízes e R$ 200 mil para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Para a Polícia Federal, o conteúdo reforça a hipótese de que a organização atuava de forma profissionalizada, mediante remuneração previamente estabelecida para a prática de homicídios.

Marco Bontempo destacou, entretanto, que a investigação não está fundamentada apenas nesse documento. Segundo ele, um amplo conjunto de provas foi reunido ao longo das apurações e fortalece a tese de existência da organização criminosa.

Entre esses elementos estão conversas extraídas de aparelhos celulares apreendidos durante a investigação. Conforme o delegado relatou ao Conselho de Sentença, uma das mensagens mostra Hedilerson Fialho Martins Barbosa discutindo com outro interlocutor a criação da logomarca da suposta organização. Ainda de acordo com o policial federal, Hedilerson afirmava que o símbolo deveria seguir as orientações do coronel Caçadini e somente poderia ser utilizado após sua aprovação.

As investigações também identificaram conversas relacionadas à negociação para aquisição de armas de fogo de alto calibre que, segundo a Polícia Federal, seriam destinadas às atividades atribuídas ao grupo criminoso.

Outro trecho do depoimento tratou das mensagens trocadas entre os investigados após a morte de Roberto Zampieri. Segundo Marco Bontempo, Antônio Gomes da Silva, apontado como autor dos disparos que mataram o advogado, recebeu elogios dos demais envolvidos.

De acordo com o delegado, em uma das conversas Antônio foi descrito como uma “máquina de matar, frio e calculista”. Em outra mensagem, os interlocutores afirmam que ele seria uma “excelente aquisição para o pelotão”, expressão que, conforme a interpretação da Polícia Federal, fazia referência à suposta organização criminosa investigada.

O julgamento é presidido pelo juiz José Mauro Nagib Jorge, da 11ª Vara Criminal da Comarca de Cuiabá. Além de Antônio Gomes da Silva, também respondem pelo homicídio triplamente qualificado Etevaldo Luiz Caçadini Devargas, apontado como financiador da execução, e Hedilerson Fialho Martins Barbosa, acusado de atuar como intermediador do crime.

Além das circunstâncias da execução, o julgamento voltou a destacar os desdobramentos provocados pela perícia realizada no telefone celular de Roberto Zampieri, considerado peça central em uma investigação que extrapolou as fronteiras de Mato Grosso.

Durante o interrogatório, a defesa questionou o delegado se a extração dos dados do aparelho teria dado origem ao maior escândalo envolvendo o Poder Judiciário brasileiro. Marco Bontempo respondeu positivamente e afirmou que as informações encontradas revelaram indícios de um amplo esquema de negociação de decisões judiciais.

As provas obtidas pela Polícia Federal e pelo Conselho Nacional de Justiça resultaram no afastamento dos desembargadores Sebastião de Moraes Filho, João Ferreira Filho e Dirceu dos Santos, além do juiz Ivan Lúcio Amarante, todos investigados por suspeitas de participação em um esquema de venda de decisões judiciais e recebimento de vantagens indevidas.

Sebastião de Moraes Filho, citado durante o julgamento, acabou sendo aposentado compulsoriamente ao completar 75 anos, idade-limite para permanência na magistratura. As investigações apontam suspeitas de que ele teria recebido vantagens ilícitas para favorecer processos patrocinados por Roberto Zampieri.

A perícia realizada no chamado “celular-bomba” do advogado também deu origem à Operação Sisamnes, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal. A ofensiva da Polícia Federal alcançou o lobista Andreson de Oliveira Gonçalves, além de assessores e chefes de gabinete ligados a ministros do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ampliando uma investigação que hoje apura um suposto esquema nacional de negociação de decisões judiciais.

Com o julgamento em andamento, a expectativa é de que novas testemunhas sejam ouvidas nos próximos dias. A acusação sustenta que os elementos apresentados em plenário reforçam a existência de uma organização criminosa estruturada para a prática de homicídios mediante pagamento, enquanto a defesa busca afastar a responsabilidade dos réus e contestar a interpretação dada pela Polícia Federal às provas reunidas durante a investigação.

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