A ministra do Supremo Tribunal Federal (STF), Cármen Lúcia, utilizou sua participação na abertura da Semana do Conhecimento, na Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), em Cuiabá, para tecer duras críticas ao cenário de desigualdade de gênero no Brasil. Durante o evento realizado nesta terça-feira (13), a magistrada enfatizou que o país ainda enfrenta um ciclo persistente de misoginia e violência, que desafia os preceitos de igualdade garantidos pela Constituição Federal de 1988.
A urgência no combate à violência de gênero
Em um discurso contundente, a ministra destacou a gravidade dos índices de feminicídio no país. Ao afirmar que uma mulher é morta a cada menos de seis horas no Brasil, Cármen Lúcia classificou a sociedade atual como uma estrutura de desiguais. Para ela, a violência não se manifesta apenas nos casos extremos de homicídio, mas está enraizada em comportamentos cotidianos, como olhares discriminatórios e piadas de mau gosto.
A magistrada relembrou uma declaração feita anteriormente a um grupo de mulheres, na qual resumiu a necessidade de uma mudança de postura masculina: “Parem de nos matar, porque aí nós resolvemos parar de morrer”. A fala reflete a frustração com a ineficiência das medidas de proteção e a persistência de uma cultura que, segundo a ministra, permeia todas as relações sociais brasileiras.
Desigualdade histórica no campo científico
O debate sobre a equidade foi estendido ao ambiente acadêmico e científico, tema central da conferência “Ciência e Democracia: caminhos para a equidade”. Cármen Lúcia pontuou que, embora as mulheres sejam maioria na população e no eleitorado, elas ainda enfrentam barreiras significativas para alcançar posições de poder e reconhecimento profissional.
Para ilustrar a invisibilidade feminina na história da ciência, a ministra citou nomes como Marie Curie, Rosalind Franklin e Jocelyn Bell. Segundo a magistrada, o histórico de descobertas científicas é marcado por casos em que o trabalho intelectual de mulheres foi eclipsado ou apropriado por supervisores homens, um reflexo da estrutura patriarcal que ainda dita o ritmo das instituições de ensino e pesquisa.
Desafios para a democracia e o papel da universidade
A ministra também abordou a baixa representatividade feminina na gestão das universidades públicas brasileiras. Ao mencionar um período em que apenas cinco mulheres ocupavam reitorias entre 71 instituições, Cármen Lúcia reforçou que a falta de equidade é um entrave para o fortalecimento da democracia. A educação, para a magistrada, deve ser o principal instrumento de transformação social e superação desses preconceitos.
Durante a cerimônia, a ministra foi homenageada com a comenda Ordem Universitária do Brasão da UFMT, entregue pela reitora Marluce Aparecida Souza e Silva. A honraria, concedida pela primeira vez desde 1995, marcou o início das atividades da 17ª Mostra de Extensão e do 34º Seminário de Iniciação Científica da instituição, que seguem até o dia 19 de outubro.
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