Várzea Grande terá de investir R$ 2,3 bilhões para vencer caos da água; plano projeta sistema de abastecimento continuo em até 2060 diz estudo
JB News
Por José Teixeira
A atualização do Plano Municipal de Saneamento Básico (PMSB) de Várzea Grande entrou oficialmente em discussão nesta quarta-feira (12), com a abertura da audiência pública destinada a apresentar o diagnóstico, debater as soluções propostas e receber contribuições da sociedade. O documento, elaborado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), traça um planejamento de 35 anos e estima investimentos de aproximadamente R$ 2,3 bilhões para reorganizar os sistemas de água e esgoto do município.

A audiência pública integra uma etapa obrigatória do processo de atualização do PMSB. Durante o debate, representantes do poder público, técnicos, vereadores, entidades e moradores poderão analisar as metas e questionar as medidas previstas para enfrentar um problema histórico que mantém milhares de famílias submetidas a torneiras secas, rodízios, baixa pressão e interrupções prolongadas no fornecimento.
O plano discutido nesta quarta-feira estabelece ações entre 2026 e 2060 e expõe a dimensão do colapso estrutural enfrentado pelo município. Após a audiência e a análise das contribuições apresentadas pela população, o texto deverá ser consolidado e posteriormente encaminhado à Câmara Municipal de Várzea Grande.

Embora o planejamento tenha como horizonte final o ano de 2060, o documento não estabelece que a população terá de esperar até lá para que o problema seja solucionado. A meta central é alcançar, até 2033, atendimento de 99% da população com água potável e cobertura de 90% na coleta e no tratamento de esgoto. A partir desse prazo, as ações deverão se concentrar na manutenção da universalização, reposição de equipamentos, modernização das estruturas e ampliação do sistema para acompanhar o crescimento da cidade.

O levantamento técnico confirma o que os moradores denunciam há anos: o sistema público apresenta um quadro de intermitência estrutural. Isso significa que, embora os indicadores oficiais apontem que a rede de abastecimento alcança 97,6% da população, estar ligado à rede não significa receber água todos os dias, com pressão adequada e fornecimento contínuo.
Nas oficinas realizadas com moradores das cinco regiões da cidade, a falta de água apareceu como a principal reclamação. Os relatos mencionaram interrupções prolongadas, fornecimento restrito a determinados horários, oscilações de pressão e dependência quase obrigatória de caixas-d’água. O próprio diagnóstico classifica essa dependência de reservatórios domiciliares como uma “adaptação compulsória” da população diante da incapacidade do serviço público de garantir continuidade.

Um dos números mais graves revelados pela Fipe está relacionado ao desperdício. Atualmente, 58,87% da água colocada no sistema é perdida antes de chegar adequadamente aos consumidores. O índice é superior à média de Mato Grosso, de 45,4%, e à média nacional, de 36,2%.
Na prática, de cada 100 litros de água distribuídos, quase 59 litros desaparecem em vazamentos, redes deterioradas, falhas de controle, ligações irregulares e problemas de medição. O sistema também apresenta índice de micromedição de apenas 2,43%, demonstrando que uma parcela mínima do volume consumido é efetivamente controlada por hidrômetros.

A conclusão técnica da Fipe é contundente: Várzea Grande já possui capacidade instalada de produção de água suficiente para atender à demanda atual, desde que o desperdício seja reduzido e a distribuição seja reorganizada. Dessa forma, o principal problema não seria apenas produzir mais água, mas impedir que ela se perca no caminho e garantir que chegue de maneira equilibrada a todos os bairros.
O PMSB estabelece uma redução gradual das perdas, saindo dos atuais 58,9% para 54,1% em 2027, 49,2% em 2028, 44,4% em 2029, 39,5% em 2030, 34,7% em 2031, 29,8% em 2032 e 25% em 2033. O cumprimento dessa trajetória dependerá da substituição de redes antigas, localização permanente de vazamentos, setorização do abastecimento, instalação de macromedidores e ampliação da hidrometração nas residências.

Entre as estruturas mais problemáticas estão redes de ferro fundido e cimento-amianto, algumas antigas e deterioradas, que contribuem para vazamentos, perda de pressão e instabilidade no fornecimento. O plano prevê a substituição anual de 5% da rede de ferro fundido durante dez anos, alcançando metade dessa estrutura no período.
A primeira etapa do planejamento compreende os quatro primeiros anos e concentra as intervenções consideradas mais urgentes. Estão previstas a modernização das captações, reforma e ampliação das Estações de Tratamento de Água, construção e recuperação de reservatórios, implantação de novas redes, instalação de hidrômetros e criação de um programa permanente de combate às perdas.
Também deverá ocorrer uma reorganização completa do sistema operacional. Estações de tratamento com baixo rendimento poderão ser gradualmente desativadas, enquanto as unidades mais eficientes serão ampliadas e modernizadas. A proposta busca substituir o atual modelo fragmentado e dependente de manobras emergenciais por um sistema integrado, capaz de manter pressão e continuidade no abastecimento.
A segunda etapa, entre o quinto e o oitavo ano, dará continuidade às obras para que o município alcance as metas do Novo Marco Legal do Saneamento em 2033. Já a terceira fase, entre 2034 e 2060, será destinada principalmente à manutenção dos resultados, ampliação da capacidade, renovação dos ativos e atendimento da população futura, projetada pela Fipe em aproximadamente 408 mil habitantes ao final do período.

O custo estimado demonstra o tamanho do desafio. Somente para o sistema de abastecimento de água, a previsão varia entre R$ 800 milhões e R$ 1,3 bilhão. O cronograma detalhado calcula aproximadamente R$ 1,05 bilhão para água, sendo R$ 170,3 milhões nos quatro primeiros anos, R$ 158,3 milhões entre o quinto e o oitavo ano e R$ 725 milhões entre 2034 e 2060.
Para o esgotamento sanitário, o cronograma prevê aproximadamente R$ 1,28 bilhão. Somados, os investimentos detalhados em água e esgoto chegam a cerca de R$ 2,33 bilhões ao longo dos 35 anos. Os valores são preliminares e ainda deverão ser aprofundados nos projetos executivos e na modelagem econômico-financeira.
O esgoto representa outro retrato do abandono acumulado. Dados utilizados no PMSB indicam cobertura de coleta de apenas 29,62% da população. Como nem todo o volume coletado recebe tratamento, o índice total de esgoto efetivamente tratado corresponde a cerca de 25,74% do município.
O diagnóstico encontrou ainda 20 estações elevatórias de esgoto, mas somente três estavam registradas como operantes. Outras apresentavam ausência de bombas, instalações elétricas incompletas, acúmulo de resíduos, vegetação alta, falta de manutenção ou haviam sido desativadas. Essa situação compromete o transporte do esgoto e impede o funcionamento adequado de redes já implantadas.

Para mudar esse cenário, o plano prevê expansão acelerada das redes coletoras, construção de interceptores e emissários, ampliação das estações de tratamento, recuperação das elevatórias e desativação das unidades de baixo desempenho. A cobertura deverá subir progressivamente dos atuais 29,6% para 90% em 2033.
O documento reconhece que os problemas de Várzea Grande não são isolados nem recentes. São deficiências estruturais acumuladas ao longo de sucessivas administrações, agravadas pela expansão urbana sem o correspondente crescimento da infraestrutura, pela baixa capacidade de investimento, pela manutenção predominantemente corretiva e pela ausência de planejamento contínuo.

A execução do plano também está relacionada à modelagem de uma futura concessão dos serviços de água e esgoto. Depois da consulta pública, da audiência desta quarta-feira e da aprovação do PMSB pelo Legislativo, deverão ser concluídos os estudos técnicos, econômicos, ambientais e jurídicos para definir o modelo de gestão que será adotado.

O novo PMSB coloca prazo, custo e responsabilidades sobre um problema que, por décadas, foi tratado com medidas emergenciais. A audiência pública aberta nesta quarta-feira inaugura o debate formal sobre o planejamento que promete universalizar os serviços até 2033 e garantir a sustentação do sistema até 2060. O desafio será transformar o documento em obras, investimentos e água efetivamente chegando às torneiras da população.
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