A expressiva movimentação do mercado financeiro brasileiro após a primeira etapa da disputa eleitoral estabeleceu um marco inédito nas contas externas. Logo na semana posterior ao primeiro turno, o fluxo cambial nacional registrou a entrada líquida de US$ 2 bilhões e 416 milhões. Esse volume representa o maior ingresso de recursos para o intervalo histórico correspondente desde o início do levantamento feito pelo Banco Central, no ano de 2008.
O comportamento recente contrasta fortemente com o padrão verificado em disputas passadas. Nas quatro eleições presidenciais anteriores, a tendência predominante foi oposta, com três ocasiões apresentando saída líquida de dólares na semana imediatamente posterior à rodada inicial de votação. Segundo especialistas, a reversão histórica observada agora reflete uma resposta direta e veloz dos investidores à composição das forças políticas que avançaram para a rodada decisiva.
Mercado antecipou posições e arrefeceu volatilidade para a fase final
Na avaliação de Leonel Oliveira Mattos, especialista em câmbio da StoneX, o comportamento dos ativos locais esteve intrinsecamente ligado à performance eleitoral. Segundo o analista, o desempenho de Flávio Bolsonaro ficou acima do que as projeções iniciais indicavam. Esse fator levou agentes econômicos a precificarem uma probabilidade elevada de vitória na etapa final, acelerando a compra de posições em moeda e renda variável.
Diante dessa percepção, investidores aumentaram rapidamente o volume aplicado em ativos nacionais, impulsionando o câmbio, o índice da Bolsa de Valores e os contratos de juros futuros. Além disso, o recuo do dólar para níveis abaixo da marca de R$ 5,00 estimulou importadores a anteciparem operações financeiras, gerando ingressos substanciais pela conta de capitais e consolidando um resultado robusto para as reservas.
Em razão dessa antecipação massiva, a expectativa de Mattos é de que a reação aos resultados do segundo turno seja nitidamente mais contida. Caso o resultado favorável a Flávio Bolsonaro se confirme, a projeção aponta para uma valorização complementar da moeda brasileira e das ações, mas sem a intensidade aguda registrada na semana seguinte à primeira votação.
Possível reeleição de Lula e risco de reversão nos ativos
Por outro lado, o analista pondera que um cenário de reeleição de Lula não foi incorporado aos preços atuais do mercado financeiro. Caso essa trajetória se concretize nas urnas, o desfecho deve ser interpretado como uma surpresa relevante pelos investidores institucionais, provocando um movimento corretivo em cadeia sobre as cotações locais.
Segundo a leitura técnica da StoneX, essa surpresa geraria uma reversão na avaliação de risco sobre o Brasil, resultando na desvalorização do real frente à moeda norte-americana e no recuo generalizado dos principais indicadores bursáteis. O impacto estaria atrelado ao desmonte repentino das posições compradas que apostavam no alinhamento da oposição.
Paralelamente ao cenário das urnas, medidas anunciadas pelo governo federal também permanecem no radar de monitoramento. Propostas envolvendo a elevação do teto de faturamento do MEI, isenções tributárias, perdão de dívidas, mudanças na escala de trabalho e ajustes no sistema Pix geram apreensão sobre os impactos nas contas públicas para o exercício de 2027. Ainda que a origem do financiamento dessas medidas siga indefinida, Mattos observa que o foco prioritário do mercado segue concentrado na definição do próximo ocupante do Palácio do Planalto.
Sustentabilidade fiscal guiará atração de capital a partir de 2027
Superado o pleito eleitoral, a consolidação da política fiscal brasileira funcionará como o verdadeiro divisor de águas para a liquidez estrangeira. O especialista reforça que a condução das contas públicas será essencial para determinar se o país continuará atraindo capital financeiro de maneira sustentável ou se enfrentará períodos de estagnação.
Caso o país chegue a 2027 sem diretrizes fiscais transparentes e consistentes, o ambiente econômico tenderá a repetir a dinâmica de 2026, independentemente de quem saia vitorioso da disputa. De acordo com Mattos, apenas um compromisso crível com o equilíbrio das contas permitirá sustentar uma trajetória contínua de descompressão cambial e estabilidade nos juros de longo prazo.
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