PM falou por oito minutos com suspeito de feminicídio e não avisou equipes que faziam buscas


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JB News

Por Emerson Teixeira

Ligação com “Pépi” foi descoberta no WhatsApp Web do foragido; delegado afirma que informação poderia ter ajudado na captura

A Polícia Civil investiga as circunstâncias de uma conversa telefônica de aproximadamente oito minutos entre um subtenente da Polícia Militar e Fabiano Oliveira Borges, de 43 anos, conhecido como “Pépi”, principal suspeito de matar a namorada, Ana Cristina Pacheco Matos, de 20 anos, com um tiro na nuca, em Cuiabá.

O contato ocorreu no sábado (15), quando Fabiano já era procurado pelas forças de segurança. Apesar disso, o policial militar não comunicou imediatamente a conversa aos investigadores da Delegacia Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) nem ao próprio comando da Polícia Militar.

O militar foi identificado como o subtenente Juarez Cândido Silva, lotado no 9º Batalhão da Polícia Militar. Ele estava em licença-prêmio e não integrava oficialmente as equipes mobilizadas para localizar Fabiano.

A existência da ligação foi descoberta durante uma diligência realizada na assistência técnica de celulares pertencente ao suspeito, no bairro Alvorada. No estabelecimento, os policiais encontraram um computador ligado e conectado ao WhatsApp Web de Fabiano.

Ao analisarem as informações disponíveis no equipamento, os investigadores identificaram o contato telefônico mantido entre o foragido e o subtenente. A descoberta levantou questionamentos sobre o motivo de a conversa não ter sido imediatamente repassada às equipes responsáveis pelas buscas.

De acordo com o delegado Bruno Abreu Magalhães, responsável pela investigação, o subtenente soube por volta das 10h40 que Fabiano era procurado pelo feminicídio. A informação teria circulado em grupos ligados às forças de segurança.

Após reconhecer o comerciante, de quem já seria conhecido, o militar decidiu telefonar. Fabiano não atendeu à primeira chamada, mas retornou aproximadamente dez minutos depois. A conversa durou cerca de oito minutos.

Para a DHPP, a informação poderia ter sido decisiva para localizar o suspeito, que ainda estaria em Cuiabá naquele momento.

“Se ele tivesse passado essa informação, eu acredito que a gente poderia estar com o suspeito preso, porque estava falando com ele no telefone e, naquela hora, ele ainda estava na cidade”, declarou o delegado.

O subtenente prestou depoimento à Polícia Civil na segunda-feira (17). Ele afirmou que conhecia Fabiano porque já havia levado aparelhos celulares para conserto na assistência técnica administrada pelo suspeito.

Segundo a versão apresentada pelo militar, o objetivo da ligação era convencer Fabiano a se entregar. O subtenente também teria declarado que pretendia prender o suspeito e receber uma eventual bonificação pela captura.

Juarez negou ter ajudado Fabiano a fugir. Em entrevista, afirmou que aguardava o “momento oportuno” para informar a situação à comandante e acionar uma equipe que pudesse efetuar a prisão.

A explicação, entretanto, é analisada com cautela pela Polícia Civil. Os investigadores querem saber por que o subtenente decidiu agir sozinho, embora estivesse afastado das atividades por licença-prêmio, e por que não acionou imediatamente as equipes que já procuravam o suspeito.

A duração do diálogo e o fato de Fabiano ter retornado espontaneamente a ligação também chamaram a atenção da DHPP.

“Eu acho difícil um suspeito ficar oito minutos com um PM dando essa brecha, se ele não tivesse alguma confiança”, afirmou Bruno Abreu.

Outro ponto investigado é o momento em que o militar decidiu informar seus superiores. Conforme a apuração, a comunicação somente teria ocorrido depois que ele soube que os policiais civis haviam descoberto a ligação por meio do computador encontrado na loja de Fabiano.

Até o momento, não se sabe exatamente o que foi tratado durante os oito minutos de conversa. A DHPP apura se o contato interferiu nas buscas ou teve alguma influência na fuga. Não há, por enquanto, elementos conclusivos para afirmar que o subtenente tenha alertado, favorecido ou auxiliado o suspeito.

Em nota, a Polícia Militar informou que o subtenente compareceu espontaneamente à DHPP para prestar esclarecimentos. A corporação negou que ele tenha sido preso ou detido por envolvimento na fuga.

Segundo a PM, o militar declarou que tentou entrar em contato com Fabiano para “intermediar a prisão” e conseguir informações que pudessem ajudar na localização do procurado. A instituição acrescentou que permanece trabalhando para capturá-lo e ressaltou que a investigação do feminicídio é conduzida pela Polícia Civil.

Crime pode ter sido planejado

Ana Cristina foi atingida com um tiro na nuca dentro da residência onde estava, no bairro Alvorada, na manhã de sábado. Ela chegou a ser socorrida, mas não resistiu ao ferimento.

A jovem mantinha um relacionamento com Fabiano havia aproximadamente duas semanas. A principal linha de investigação indica que o crime pode ter sido motivado por ciúmes diante da possibilidade de Ana Cristina reatar o relacionamento com o ex-companheiro.

A Polícia Civil apura se Fabiano teve acesso a conversas existentes no celular da vítima. Para os investigadores, essas mensagens podem ter desencadeado o crime.

Uma mala contendo roupas e pertences do suspeito foi encontrada pronta dentro da residência. A DHPP considera a possibilidade de que Fabiano planejasse viajar e posteriormente utilizar a viagem como álibi, circunstância que reforça a suspeita de premeditação.

O filho de Ana Cristina, uma criança de apenas três anos, estava na residência quando o crime aconteceu e pode ter presenciado parte da ação. O menino foi encontrado acordado e em estado de choque.

Depois do disparo, Fabiano fugiu em uma motocicleta Honda Titan preta. Ele passou a ser procurado pelas forças de segurança como principal suspeito do feminicídio.

A DHPP conduz três frentes simultâneas de apuração: a reconstrução completa da morte de Ana Cristina, a localização de Fabiano e o esclarecimento da conversa mantida entre o suspeito e o subtenente da Polícia Militar.



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