Análise: Relato de ex-chefe da FAB expõe crise militar na trama golpista


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Carlos de Almeida Baptista Júnior, que chefiava a Força Aérea Brasileira no final do governo de Jair Bolsonaro, prepara o lançamento de um livro intitulado “Eu disse não! uma trincheira antigolpista”, previsto para setembro, a menos de um mês do primeiro turno das eleições. Os analistas de Política da CNN Caio Junqueira e Jussara Soares, o analista de Internacional da CNN Lourival Sant’Anna e Sergio Etchegoyen, ex-ministro-chefe do GSI (Gabinete de Segurança Institucional), debatem o assunto durante o WW.

Na obra, o brigadeiro narra detalhes do plano de golpe que se articulava no Palácio do Planalto em 2022, com o apoio de figuras de relevo no meio militar, algumas das quais já condenadas e presas.

Assim como o general Marco Antônio Freire Gomes, do Exército, Baptista Júnior prestou depoimento como testemunha no processo que levou o ex-presiente Jair Bolsonaro à condenação por tentativa de golpe contra o resultado da eleição de 2022.

Entre os réus condenados no mesmo processo estão Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, Braga Neto e Almir Garnier, então comandante da Marinha. O STF concluiu que Garnier foi o único comandante a colocar sua força à disposição para medidas de exceção discutidas no final do governo Bolsonaro, com o objetivo de anular o resultado eleitoral.

Relato sobre o relatório das urnas e o pós-8 de janeiro

Em entrevista ao portal UOL, Baptista Júnior afirmou que Bolsonaro relutava em aceitar as conclusões de um relatório encomendado em julho de 2022 e publicado em novembro, após o segundo turno, que não apontou evidências de fraudes nas urnas.

Já em entrevista ao jornal O Globo, o brigadeiro revelou ter conversado com Bolsonaro cerca de dez dias após os eventos de 8 de janeiro, ocasião em que compartilhou uma fala de Valdemar Costa Neto, líder do PL, segundo a qual muitos dos erros de Bolsonaro no governo seriam culpa dos militares.

Baptista disse a Bolsonaro que as Forças Armadas estavam “levando toda a carga” e que o ex-presidente poderia ter agido para impedir isso enquanto ainda estava no cargo.

Sergio Etchegoyen relembra conversa com o brigadeiro

Sergio Etchegoyen, que conhecia Baptista Júnior há muitos anos — inclusive por laços que remontam a seus pais —, revelou que o brigadeiro o contactou para saber se havia informações sobre a posição dos chefes militares diante da crise.

“O que ele estava preocupado era em saber se eu tinha alguma informação”, disse Etchegoyen, acrescentando que, embora não tivesse dados concretos, tinha uma percepção sobre como os comandantes agiriam, por conhecê-los há toda uma carreira.

“Por conhecê-los, imaginava que ele, como os outros, não entrariam numa aventura desse tipo”, afirmou.

Etchegoyen ressaltou que, muito antes dos acontecimentos, já dizia a quem perguntava que não acreditava que uma ruptura democrática fosse ocorrer.

“Imaginar que as Forças Armadas fossem interromper o processo democrático por uma solicitação, uma inspiração ou estímulo de alguém, eu não acreditava”, declarou, citando como referência histórica os impeachments dos presidentes Fernando Collor, em 1992, e Dilma Rousseff, em 2016, episódios nos quais as Forças Armadas “ficaram onde estavam”.

Debate sobre tensões institucionais e confiabilidade das urnas

Durante o debate, Etchegoyen avaliou que possíveis tensões entre as instituições poderiam gerar desconfortos, mas descartou uma escalada de instabilidade a partir das Forças Armadas.

“Eu não vejo desestabilidade a partir das Forças, como não vi antes, como não vejo agora”, afirmou.

Ao ser questionado sobre a confiabilidade do sistema eleitoral, ele defendeu que a administração pública tem o dever de demonstrar, e não apenas afirmar, que o processo é confiável, argumentando que a discussão sobre o voto eletrônico se concentrou equivocadamente na urna, quando o processo como um todo — desde a aquisição até a programação dos equipamentos — apresenta riscos em cada etapa que precisam ser mitigados e comprovados.

Etchegoyen também fez uma distinção entre militares da ativa e da reserva no que diz respeito à participação política. Segundo ele, o militar da ativa abdica voluntariamente da participação política ao escolher a carreira, enquanto o militar da reserva recupera o direito de se manifestar, discordar e opinar.

“Ele não tem direito de conspirar, ele não tem direito de confrontar a lei, de confrontar a Constituição. Mas pensar, manifestar, deixar a sua opinião — isso é legítimo”, concluiu.



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