“Não sou a mulher da SES”: ex-adjunta diz ter sido “massacrada”, afirma que nunca foi ré na justiça
JB News
Por Emerson Teixeira
Caroline Dobes afirma que apresentou provas à Justiça, foi excluída das acusações e pediu sigilo da oitiva para evitar uso político de seu depoimento; ex-gestora diz estar “esgotada” após anos de exposição
A ex-secretária-adjunta de Gestão Hospitalar da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT), Caroline Campos Dobes Conturbia Neves, fez um forte desabafo após prestar depoimento, nesta quarta-feira (26), à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Saúde da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT). Convocada para esclarecer fatos relacionados ao período em que integrou a gestão da pasta, especialmente durante a pandemia da Covid-19, Caroline afirmou ter respondido a 70 perguntas, negou qualquer envolvimento com irregularidades e declarou que vem sendo “massacrada” publicamente há anos.
A CPI da Saúde foi instalada pela Assembleia para investigar atos e contratos firmados pela SES entre 2019 e 2023, com atenção especial às contratações realizadas durante a pandemia e aos desdobramentos de investigações relacionadas à chamada Operação Espelho.
A oitiva de Caroline ocorreu de forma reservada, a pedido de sua defesa. Na saída da reunião, a ex-secretária explicou que a solicitação não ocorreu porque pretendesse esconder informações, mas para evitar que declarações de natureza técnica fossem utilizadas no ambiente político e eleitoral.
“A questão é para que os depoimentos que foram prestados não fossem usados nesse momento político, já que a minha posição técnica, minha posição nesse processo todo sempre foi técnica. Então, eu pedi para que fosse respeitada essa minha condição. É isso, nada mais”, explicou.
Questionada se alguma revelação feita aos deputados justificaria o sigilo, Caroline foi taxativa ao afirmar que respondeu integralmente aos parlamentares.
“Foram feitas 70 perguntas e 70 perguntas foram respondidas. Todas elas foram respondidas”, declarou.
Segundo a ex-gestora, boa parte dos questionamentos apresentados pela CPI já havia sido objeto de apuração por órgãos como Ministério Público, Polícia Judiciária e Poder Judiciário. Caroline sustentou que apresentou documentos e provas em processos anteriores e que decisões judiciais já afastaram sua responsabilidade nos fatos investigados.
“Tudo que precisava ser respondido ou provado da minha parte foi apresentado judicialmente há muitos anos. Tudo que foi perguntado já foi demanda de perguntas pelas autoridades, Ministério Público, Polícia Judiciária e Poder Judiciário”, afirmou.
Caroline disse ainda que decisões judiciais tomadas a partir de 2023 impediram que ela chegasse à condição de ré. De acordo com a ex-secretária, as provas apresentadas à 7ª Vara Criminal foram analisadas e a Justiça entendeu que ela não deveria integrar o processo. Ela também afirmou que uma denúncia contra ela não foi recebida na esfera federal.
“Mesmo tendo uma decisão que já me excluiu dessa investigação, eu sequer me tornei ré. Eu apresentei provas perante o Poder Judiciário, na Sétima Vara Criminal. Eu fui excluída do rol de réus. Nunca cheguei a responder por isso. As provas foram julgadas e considerou-se que eu não fazia parte disso”, disse.
Foi nesse momento que Caroline fez uma das declarações mais contundentes após deixar a CPI e reagiu à forma como seu nome passou a ser associado publicamente aos episódios investigados na Saúde.
“Eu nunca fui processada. Não sou a mulher da SES, de forma pejorativa, como divulgam. Os trabalhos que eu fiz sempre foram em favor da sociedade”, afirmou.
A ex-adjunta aproveitou para defender sua atuação durante o período mais crítico da pandemia e citou como exemplo o Centro de Triagem da Covid-19, instalado na Arena Pantanal. À época, Caroline atuou na coordenação da estrutura, que chegou a realizar centenas de atendimentos diariamente. Registros oficiais do Governo do Estado confirmam sua participação na gestão do Centro de Triagem.
“Aquele Centro de Triagem que, durante a pandemia, todos vocês puderam ser atendidos com carinho, com humanidade, foi um projeto da minha autoria como secretária. Eu estava ali para atender a população”, declarou.
Em seguida, Caroline voltou a rejeitar a associação negativa de seu nome à Secretaria.
“Se eu sou uma mulher da SES, eu sou a mulher que trabalha e que tirou grandes projetos assistenciais para salvar a população de Mato Grosso num momento crítico da pandemia. Foi isso que eu fazia dentro da Secretaria e foi isso que eu vim provar mais uma vez aqui para os deputados que estão fazendo a função deles”, completou.
Apesar de criticar o desgaste causado pela exposição pública, a ex-secretária afirmou considerar legítima a investigação conduzida pela Assembleia Legislativa. Para ela, os deputados devem continuar apurando os fatos e esclarecendo eventuais responsabilidades.
“Eles precisam continuar fazendo o trabalho, porque é o que a sociedade espera deles”, disse.
Caroline também avaliou que os parlamentares estão exercendo uma atribuição própria do Legislativo. “Eles estão cumprindo com o papel pelo qual eles foram eleitos e continuam trabalhando dentro da competência deles, daquilo que se espera deles”, declarou.
A CPI tem analisado contratos, licitações, dispensas de licitação e pagamentos realizados pela Secretaria de Saúde durante o período investigado. Em etapas anteriores, auditores da Controladoria-Geral do Estado prestaram depoimento sobre contratos e despesas indenizatórias, enquanto a comissão também avançou sobre suspeitas envolvendo serviços contratados durante a pandemia.
Ao ser questionada diretamente sobre contratações emergenciais, empresas que receberam recursos públicos e pagamentos realizados sem licitação durante a pandemia, Caroline preferiu não entrar novamente no mérito individual de cada episódio. Segundo ela, os esclarecimentos haviam acabado de ser prestados aos deputados durante a extensa oitiva.
Foi então que a ex-secretária demonstrou forte desgaste emocional e disse estar no limite depois de anos convivendo com acusações públicas que, conforme sustenta, não resultaram em processo criminal contra ela.
“Eu estou, assim, de verdade, esgotada. Faz muitos anos que eu estou sendo submetida a um processo de julgamento popular e sendo massacrada na minha imagem e na minha vida, sem nada eu ter a ver com isso”, desabafou.
Segundo Caroline, a decisão de permanecer em silêncio publicamente durante parte desse período ocorreu por orientação jurídica. Ela afirmou que aguardava o momento considerado adequado para apresentar sua versão de forma documental e sem fazer acusações contra terceiros.
“Eu estava aguardando, orientada pelo meu advogado, doutor Ricardo, um momento oportuno, correto, adequado, para que eu pudesse me manifestar documentalmente, como sempre foi minha posição profissional: apresentar as coisas como têm que ser, sem ser leviana, sem acusar ninguém”, afirmou.
Caroline revelou ainda que a convocação para comparecer à CPI voltou a provocar forte desgaste pessoal.
“Desde a minha convocação, algumas noites eu passei em claro. Então, eu acho que vocês vão ter acesso a tudo que foi respondido e, se tiverem necessidade de alguns esclarecimentos, vocês podem procurar o doutor Ricardo”, disse.
No encerramento da entrevista, a ex-secretária pediu respeito e voltou a mencionar o impacto que o caso tem provocado em sua vida.
“Eu estou esgotada. Eu estou no meu limite. Eu preciso que vocês me respeitem e, na próxima oportunidade, a gente responde mais”, concluiu.
A CPI da Saúde é presidida pelo deputado Wilson Santos (PSD) e foi criada para aprofundar a análise sobre procedimentos, contratos e movimentações financeiras realizados pela SES no período compreendido entre 2019 e 2023. O colegiado tem entre seus objetivos identificar eventuais irregularidades e, caso sejam encontradas, individualizar responsabilidades.
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