Um avanço na pesquisa agrícola nacional aponta novos caminhos para o manejo de lavouras e promete transformar a forma como o setor produtivo lida com pragas nas plantações. Um estudo conduzido pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) em parceria com a Universidade de São Paulo (USP) revelou uma abordagem inovadora para o controle biológico de doenças do trigo. Em testes controlados, bactérias benéficas conseguiram diminuir expressivamente a severidade dos danos causados pelo fungo Bipolaris sorokiniana nas plantações.
A novidade fundamenta-se no manejo da comunidade de microrganismos que habitam ao redor das raízes das plantas. Caso a tecnologia avance para viabilização comercial, o setor poderá contar com uma alternativa eficiente para diminuir a dependência de defensivos químicos tradicionais. O estudo teve coordenação do pesquisador Rodrigo Mendes, da Embrapa Meio Ambiente, que avaliou o comportamento de três bactérias específicas na interação com o patógeno causador de podridões e manchas nas lavouras.
Reorganização do solo fortalece a resistência natural
O grande diferencial da pesquisa publicada na revista npj Biofilms and Microbiomes está no mecanismo de ação dos microrganismos introduzidos no solo. Em vez de atuarem na eliminação direta do patógeno, as bactérias benéficas reorganizam a comunidade microbiana presente na rizosfera. Esse processo devolve ao solo funções ecológicas fundamentais que acabam estimulando a defesa natural do trigo contra infecções severas.
Caroline Nishisaka, pesquisadora do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena-USP), detalha que os inoculantes alteram profundamente o cenário microbiológico local. Segundo a especialista, o processo reforça os mecanismos de proteção das plantas de maneira indireta, criando um ambiente desfavorável para o avanço dos danos sem a necessidade de intervenções agressivas com agroquímicos convencionais.
Impacto do patógeno em regiões quentes
O fungo Bipolaris sorokiniana representa um dos maiores desafios econômicos para os produtores de trigo, especialmente em territórios com clima mais quente ou que enfrentam episódios recorrentes de deficiência hídrica. O organismo é o principal responsável por complicações como a mancha-marrom, a queima de plântulas, o ponto preto e diferentes tipos de podridão radicular ou da coroa, comprometendo a produtividade das safras.
Durante os experimentos conduzidos pelas instituições, os cientistas confrontaram plantas expostas unicamente ao fungo com outro grupo que recebeu tanto o patógeno quanto as bactérias benéficas. Os resultados demonstraram que o segundo grupo apresentou menor gravidade nos sintomas, mesmo em cenários onde a população do fungo permaneceu estável ou apresentou ligeiro crescimento durante o monitoramento laboratorial.
Reguladores ecológicos e sustentabilidade no campo
Entre as linhagens analisadas, a bactéria Pseudomonas inefficax obteve destaque ao modificar a estrutura microbiana da raiz, ampliar a disponibilidade de fósforo e estimular o desenvolvimento do sistema radicular. Hélio Quevedo, doutor em Microbiologia Agrícola pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (Esalq-USP), reforça que o sucesso biológico independe da erradicação total do agente causador da doença na terra.
Os dados levantados pela equipe multidisciplinar demonstram que a inovação científica pode pavimentar o caminho para a criação de novos inoculantes agrícolas sustentáveis. Para conferir mais detalhes sobre a pesquisa original publicada no exterior, acesse o artigo completo na Nature.
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