A experiência de fazer um detox profundo com pouca comida – 14/06/2026 – Equilíbrio


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Foi minha terceira tentativa de fazer a Mayr Prevent, uma terapia de desintoxicação. Nas duas primeiras, fui vetada na consulta prévia obrigatória, com o nutricionista Daniel Boarim, diretor médico do Spa Lapinha, no Paraná. Meu interesse era melhorar meu sistema imunológico, que andou me deixando na mão nos últimos anos.

Alérgica e asmática de nascença, minhas crises começaram a ficar mais frequentes de uns quatro, cinco anos para cá. O santo remédio à base de corticoide que sempre resolvia meus problemas de respiração começou a ter um efeito colateral chato no esôfago. O tratamento deste problema secundário, por sua vez, também tem lá suas reações adversas. Parecia uma guerra perdida.

E foi justamente por causa dessas crises frequentes e severas que eu não conseguia fazer o detox que prometia melhorar meu sistema imunológico a partir da microbiota intestinal —hoje já sabemos, parte fundamental do nosso exército de defesa contra vírus e bactérias. Toda vez que me programava para tirar os 15 dias necessários para a Mayr Prevent, eu estava saindo de uma crise daquelas, debilitada devido aos antibióticos.

Mas em março deste ano, os astros se alinharam a meu favor. Fiz a reserva com antecedência e me cuidei bastante nas semanas pré-viagem. Consegui passar no crivo do Boarim, que me alertou na consulta prévia, feita por Zoom: “se você tiver algum problema respiratório durante sua estada, vai ter que trocar o protocolo”.

O gastroenterologista austríaco Franz Xaver Mayr formulou a Mayr Prevent há mais de 100 anos. A terapia tem quase um mantra em sua explicação, repetido nos encontros da “turma da Mayr”, um grupo formado por seis mulheres e por mim, que dedicamos 15 dias ao tratamento. A médica argentina Cecilia Mirenda fala portunhol perfeito. Todas nos comunicamos muito bem com ela, mas o “slogan” da Mayr era sempre repetido em espanhol:

“Es una activa medicina preventiva, integrativa y regenerativa, que se realiza a través de una dieta de cuidado de mucosa digestiva y el aprendizaje de un estilo de vida saludable, que actúa a nivel de la microbiota del paciente mejorando su estado de salud”.

Em português é bem parecido: É uma medicina preventiva, integrativa e regenerativa ativa, realizada por meio de uma dieta voltada ao cuidado da mucosa digestiva e do aprendizado de um estilo de vida saudável, atuando no nível da microbiota do paciente e melhorando seu estado de saúde.

Na prática, o que acontece durante os 15 dias de detox na Lapinha é o seguinte: toda manhã, em jejum, a gente toma uma dose pequena de sal amargo, duas colheres de chá dissolvidas em meio copo d’água na noite anterior. Sal amargo é o nome popular do sulfato de magnésio heptahidratado, uma substância mineral que funciona como laxante porque traz mais água para o intestino.

Tem outros usos também, funciona como relaxante muscular em banhos de imersão e é uma boa fonte de magnésio para plantas, na jardinagem. Vende em qualquer farmácia ou loja de produtos naturais. Mas confia em mim: não abuse do sal amargo. Sério.

O café da manhã pode ser um mingau de aveia com leite de aveia, bem molinho, ou um pãozinho cortado fininho com uma pasta de amêndoas. E chá à vontade. Café nem pensar, nenhum estimulante é permitido (e aqui vale uma confissão: eu levei café solúvel e tomei todos os dias, no quarto, escondida. Botava em cima dos chás que são servidos, então tomei café sabor laranja, cavalinha, maçã, cravo e canela, erva-cidreira, cada dia um sabor diferente. E só um por dia. Às vezes dois. Pedi permissão para a médica, que me aconselhou a não fazer isso, para eu me esforçar que seria melhor para mim, mas não aguentei. Desculpe, doutora Cecilia).

No meio da manhã, às 11h30, tomávamos um caldo bouillon, nome chique para uma sopa rala bem temperadinha, quentinha, de legumes e verduras, sem nenhum pedaço. Em seguida, éramos aconselhadas a subir para o quarto, botar pijama, apagar todas as luzes e fazer um repouso com uma bolsa de água quente do lado esquerdo do abdômen, onde fica o fígado. A bolsa quente já estava no meio dos travesseiros esperando nossa chegada depois da sopinha.

O almoço era a grande atração do dia. Servem o almoço às 13h30, porque um dos fundamentos da Mayr Prevent é que o paciente precisa ter pelo menos cinco horas de intervalo entre as refeições. E a dieta de cada pessoa depende da avaliação inicial que Mirenda, especializada na dieta Mayr, e que vem ao Brasil duas quinzenas por ano, uma no primeiro semestre, outra no segundo, para conduzir a turma, estabelece na primeira consulta, feita lá na Lapinha.

Eu, que tinha perdido bastante massa muscular por causa de uma torção feia no tornozelo três meses antes, que me tirou das aulas de ginástica e dança, estava abaixo do peso. Com meu histórico de asma e alergia, fui para uma dieta menos rígida. Meu almoço era um prato até bem servido de legumes cozidos, com apresentação caprichadíssima. Mas uma das minhas colegas de detox, que sentava sempre à minha direita, passou os 15 dias à base do pãozinho com pasta de amêndoa.

Nos primeiros três a quatro dias, nosso grupo das sete mulheres — uma argentina que mora no Canadá, uma brasileira que mora em Miami, uma americana que mora no Equador, duas paulistas, uma gaúcha em tratamento contra um câncer e eu — sentiu bastante sono e falta de energia. Algumas relataram uma leve tontura, pela falta do café e do sal. Tudo era explicado e, se necessário, tratado pela médica. Depois, recebemos dois “agregados”: um homem e uma mulher, que não estavam juntos e chegaram na segunda semana.

Como a indicação é não fazer esportes que exijam muito do corpo, as longas caminhadas das 6h30, uma tradição da Lapinha, eram desaconselhadas para nós. Hidroginástica a gente podia fazer, ioga, pilates, musculação (de leve).

Em alemão, língua na qual as diretrizes da Mayr Prevent foram escritas, o protocolo tem quatro princípios: schonung, repouso do sistema digestivo; säuberung, limpeza do organismo; schulung, reeducação alimentar e dos hábitos de mastigação e, por fim, substitution, reposição de nutrientes quando necessário.

O repouso do sistema digestivo é feito com uma dieta só de legumes cozidos, pão sem glúten, amanhecido, pastas de amêndoas e mingau de aveia com leite de aveia. Não há carne nem lactose. Ovo é permitido, desde que não frito.

A limpeza do organismo fica a cargo do sal amargo, que dispensa explicações. Você vai ao banheiro todo dia, e as fezes ficam molinhas como de neném e levam embora tudo que o intestino por acaso não tenha conseguido fazer por conta própria.

Mastigar, mastigar, mastigar. “Mastigue até os líquidos”, brincava Mirenda, que batia nessa tecla para que esse princípio fundamental da digestão não fosse esquecido pela turma, que só recebia comidas muito molinhas ou sopas. A única crocância vinha do pão, cortado em fatias tão finas que ficavam quase como uma hóstia.

E a substituição era função do pó básico, uma mistura de minerais alcalinos usada para ajudar a manter o equilíbrio ácido-base durante o tratamento. A fórmula é feita a partir de cálcio, magnésio, potássio e bicarbonato. Podíamos tomar duas colheres em meio copo de água três vezes ao dia. Como é salgadinho, dava uma boa disfarçada na fome.

E o jantar era sopa, com o tal do pãozinho cortado bem fininho e um pouco de pasta de amêndoa ou queijo de castanha de caju, como fonte de proteína. A cada dois dias, éramos atendidas pela médica, que fazia uma massagem abdominal própria da técnica, ouvia nossas queixas e ajustava uma coisinha ou outra.

À noite, depois do jantar, um dia sim e outro não, tinha palestra da Mirenda, que nos ajudava a entender tanto os princípios daquela dieta como os benefícios que podíamos esperar dessa mudança tão radical.

Um dia antes de voltarmos para casa, sonhando com uma frutinha no café da manhã e um café coado, um balde de água fria: a Mayr Prevent só se completa com mais quatro semanas, a chamada “pós-cura”, em que, mesmo de volta ao lar, tivemos que seguir a maior parte das regras e ir introduzindo, pouco a pouco, os alimentos e hábitos que deixamos para trás.

A primeira semana de pós-cura é bem parecida com o que acontecia na Lapinha. Nada cru, só sopa no jantar, e a última refeição era feita pelo menos 3 a 4 horas antes de se deitar. Na segunda podíamos comer uma fruta cozida. Na terceira, um prato de salada no almoço. Na quarta, uma fruta crua no café da manhã.

Foi bem mais fácil do que eu imaginava. Mas tudo na Lapinha é assim, afinal, lá a gente é cuidada, servida, e não há as distrações do dia a dia. As quatro semanas em casa foram bem mais desafiadoras, e confesso que fiz cada fase durar apenas três dias, em vez de sete (desculpe mais uma vez, doutora Cecilia).

Já faz dois meses e meio que eu voltei. Os três quilos que perdi na quinzena Mayr não voltaram, apesar da minha dieta estar quase normal. Confesso que hoje em dia desconfio de comidas cruas no jantar e adotei o mingau de aveia como desjejum.

De resto, não sei dizer com 100% de certeza o que mudou na minha vida, mas que dá um orgulho imenso saber que consegui fazer a Mayr até o fim, isso dá. Neste ano, ao contrário dos últimos quatro ou cinco, ainda não tive nenhuma crise de asma ou alergia, nem tomei corticoide ou antibióticos. E isso é uma vitória imensa para o meu sistema imunológico.

Terapia Mayr Prevent

Onde: Spa Lapinha: estrada da Lapa, km 16,5, Fazenda Margarida, Lapa (PR), lapinha.com.br

Quando: próxima data será de 9 a 23 de agosto

Quanto: valor individual a partir de 27.957,72, mais o adicional de R$ 8.785,95 do programa, no total de R$ 36.743,67. Valor duplo por pessoa a partir de R$ 22.366,18, mais o adicional de R$ 8.785,95 do programa (por pessoa), no total de R$ 62.304,26

A jornalista viajou a convite do Spa Lapinha.



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