Um novo levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), divulgado nesta terça-feira (29), revela um desafio estrutural persistente na educação brasileira: 9% dos professores da rede pública de ensino básico não possuem qualificação completa. O índice, que considera docentes sem diploma, certificação ou formação pedagógica adequada, coloca o Brasil em patamar muito próximo à média global da organização, que é de 9,1%.
O relatório Panorama da Educação 2026 (Education at a Glance) destaca que a presença desses profissionais em sala de aula é, muitas vezes, uma medida de contingência adotada pelas redes de ensino diante da escassez crônica de docentes. O problema não é uniforme e se agrava em contextos específicos, atingindo com maior força áreas remotas, regiões vulneráveis e disciplinas fundamentais, como matemática e ciências naturais.
Desafios na formação e permanência docente
Para Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, o debate sobre a qualidade do ensino não pode se limitar apenas ao volume de profissionais formados. Segundo ele, é preciso analisar quem de fato chega à escola, qual é a sua formação específica para a disciplina que ministra, em qual território atua e, principalmente, por quanto tempo esse profissional consegue permanecer na rede.
A rotatividade é um fator que pressiona o sistema. Em 2022, cerca de 10,3% dos professores brasileiros que possuíam qualificação plena deixaram a profissão, seja por aposentadoria ou desligamento. O número supera a média de 6,4% observada nos países da OCDE no mesmo período. Henriques ressalta que, embora parte desses profissionais possa ter migrado para a rede privada, a saída da rede pública representa uma perda significativa de capital humano para o ensino básico.
Condições de trabalho e atratividade da carreira
O relatório aponta que a escassez de professores está diretamente ligada à atratividade da carreira, que sofre influência de fatores como salários, clima escolar, autonomia profissional e o reconhecimento social da profissão. Os dados de satisfação dos docentes brasileiros são preocupantes: apenas 44,3% dos professores dos anos finais do ensino fundamental declararam estar satisfeitos com suas condições de trabalho em 2022, enquanto a média da OCDE chega a 68,4%.
No que diz respeito à remuneração, o cenário de descontentamento é ainda mais acentuado, com apenas 22,3% dos docentes brasileiros satisfeitos, contra 38,7% na média dos países membros da organização. O Ministério da Educação (MEC) defende que tem buscado reverter esse quadro por meio da política de valorização salarial, destacando o Piso Nacional do Magistério, que está fixado em R$ 5.130,63.
Estratégias para o futuro da educação
Para enfrentar o déficit de profissionais, o governo federal tem apostado em programas como o Mais Professores para o Brasil e o Pé-de-Meia Licenciaturas. O ministro da Educação, Leonardo Barchini, afirma que o incentivo financeiro para estudantes de alto desempenho tem surtido efeito, com um aumento de 106% nas matrículas de cursos de licenciatura entre 2024 e 2026. Além disso, o país tem recorrido à estratégia de atrair profissionais de outras áreas para a docência, com 11,5% dos professores atuando em uma segunda carreira, índice superior à média da OCDE, de 8,4%.
O Panorama da Educação é uma referência internacional para a análise de sistemas educacionais, e o Brasil participa da publicação desde 1997, com o suporte técnico do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Você pode acompanhar mais desdobramentos sobre este e outros temas fundamentais para o desenvolvimento do país no portal da OCDE e continuar lendo o Play Notícias News para se manter informado com credibilidade e profundidade.
Mais sobre este assunto
Azul apura decolagem de aeronave que quase atingiu limite da pista em Congonhas
Tensões regionais desafiam ambições da Arábia Saudita durante congresso de energia
Papa Leão XIV passa por cirurgia bem-sucedida para tratar câncer de pulmão
A trajetória de Kimberly Guilfoyle: ascensão e queda sob escrutínio