Uma descoberta arqueológica na caverna de Shanidar, situada na região do Curdistão iraquiano, trouxe à tona novos elementos sobre a complexa trajetória de sobrevivência e morte dos neandertais. Restos mortais de um indivíduo, identificado como Shanidar A, sugerem que sua vida foi interrompida de forma violenta há cerca de 75 mil anos, possivelmente por um ataque deliberado com uma lança de madeira.
O achado, detalhado em um estudo publicado na revista Scientific Reports, aponta para um orifício circular e preciso na escápula do hominídeo. A análise arqueológica indica que o projétil atravessou o tórax, atingindo órgãos vitais e grandes artérias, o que teria causado um desfecho fatal imediato ou em curto intervalo de tempo. Este caso é apontado por especialistas como um dos primeiros exemplos conhecidos de um possível homicídio na história da evolução humana.
A complexidade da vida em grupo na pré-história
Embora a causa da morte tenha sido violenta, a análise dos fragmentos ósseos — que incluem uma mão direita quase completa, costelas e sete dentes — revela que a existência de Shanidar A foi marcada por desafios anteriores. O indivíduo, que teria cerca de 45 anos ao falecer, apresentava sinais de um trauma contundente na face, evidenciado por um dente rachado longitudinalmente.
O detalhe crucial, contudo, reside no acúmulo de tártaro sobre o canal radicular desse dente. Esse marcador biológico indica que a lesão ocorreu muito tempo antes da morte do hominídeo. Para os pesquisadores, o fato de o indivíduo ter sobrevivido por pelo menos um ano após o trauma facial sugere que ele contou com o suporte de outros membros de seu grupo, possivelmente recebendo auxílio na alimentação, como o preparo de itens mais macios.
Evidências de cuidado e suporte social
Emma Pomeroy, professora associada de evolução da saúde, dieta e doenças no Departamento de Arqueologia da Universidade de Cambridge e autora principal do estudo, destaca que a sobrevivência a um ferimento dessa magnitude exigia uma rede de apoio. A capacidade de processar alimentos, como o cozimento de plantas e leguminosas, reforça a hipótese de que os neandertais mantinham estruturas sociais de cooperação.
A descoberta em Shanidar, realizada em escavações distintas entre 2019 e 2022, desafia visões simplistas sobre a brutalidade na vida dos hominídeos. O caso de Shanidar A não apenas ilustra a violência física, mas também sublinha a resiliência e o comportamento social complexo desses ancestrais, que equilibravam a sobrevivência em um ambiente hostil com o cuidado mútuo.
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