O setor de varejo na Bolsa brasileira vive um momento de expectativa intensa às vésperas do pleito presidencial. Historicamente, poucas áreas do mercado financeiro possuem tanta sensibilidade à trajetória dos juros e à percepção de risco fiscal quanto as grandes redes de consumo. No entanto, o cenário atual exige cautela, segundo análise do JPMorgan, que sugere que parte do otimismo com a queda da Selic já foi precificada pelos investidores, reduzindo o potencial de valorização imediata de alguns papéis.
O dilema do varejo frente ao cenário eleitoral
O JPMorgan destaca que o setor chega ao período eleitoral com valuations significativamente deprimidos após um ciclo prolongado de revisões negativas de lucros. Esse cenário, embora desafiador, cria uma janela de oportunidade caso o resultado das urnas sinalize um caminho de maior disciplina fiscal, o que poderia reduzir o prêmio de risco brasileiro e, consequentemente, as taxas de juros. Contudo, o banco alerta que o mercado ainda não possui clareza sobre qual será a inclinação política em relação à responsabilidade com as contas públicas.
Apesar da recomendação de venda para as ações da Magazine Luiza (MGLU3), o papel tem desafiado as projeções da instituição, acumulando alta superior a 60% em setembro e fechando com valorização de 12,52% em uma única sessão. Esse movimento reflete como os fluxos domésticos têm ditado o ritmo das negociações, antecipando cenários macroeconômicos antes mesmo da definição do pleito.
Assimetria de risco e novas apostas
Para o JPMorgan, a relação entre risco e retorno mudou para as chamadas apostas óbvias de queda de juros. Embora Magazine Luiza e Assaí (ASAI3) sejam vistas como os principais “betas” dos juros — ou seja, empresas que se beneficiam diretamente de taxas menores devido à sua elevada alavancagem —, o banco enxerga maior atratividade em outros nomes.
Atualmente, a instituição considera que empresas como C&A (CEAB3), Lojas Renner (LREN3) e Riachuelo (RIAA3) apresentam uma assimetria mais interessante. O desconto das varejistas em relação às suas médias históricas é expressivo:
- C&A negocia com desconto de 78% frente à média de dez anos.
- Lojas Renner apresenta desconto de 66% no mesmo período.
- Riachuelo registra um patamar 65% abaixo de sua média histórica.
Fundamentos versus expectativa política
É fundamental que o investidor não confunda uma eventual alta das ações motivada pelo cenário político com uma recuperação imediata dos fundamentos operacionais das empresas. O JPMorgan ressalta que, mesmo em um cenário de juros menores, não se espera que os múltiplos retornem integralmente aos patamares do passado, dado que muitas companhias atingiram um estágio de maturidade diferente.
No caso específico do Assaí, o banco mantém recomendação neutra, destacando a resiliência do varejo alimentar e a menor dependência de incentivos fiscais. Já para a Magazine Luiza, a cautela persiste. O banco aponta que grande parte do lucro da companhia ainda está atrelada a benefícios tributários, e alerta que a queda dos juros pode, paradoxalmente, reduzir margens brutas ao diminuir ganhos financeiros embutidos nas vendas a prazo.
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