O julgamento de um dos crimes mais impactantes da história recente do Judiciário mato-grossense revelou detalhes perturbadores sobre a frieza e o planejamento por trás da execução do advogado Roberto Zampieri. Durante o depoimento prestado nesta terça-feira (29 de setembro de 2026), o delegado Nilson Farias, da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), detalhou como o executor confesso, Antônio Gomes da Silva, utilizou uma estratégia de infiltração para monitorar a rotina da vítima.
Segundo as investigações, Antônio não apenas vigiou o escritório de Zampieri, mas conseguiu entrar no local diversas vezes sem levantar qualquer suspeita. Para isso, ele adotou o disfarce de um “capelão”, uma figura religiosa que costuma prestar assistência espiritual. O réu utilizava acessórios específicos, como boinas, chapéus e até uma bengala, para compor um personagem inofensivo e ganhar a confiança das pessoas que frequentavam o prédio comercial no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá.
Estratégia de infiltração e a falsa sensação de segurança
O delegado Nilson Farias pontuou que a escolha do disfarce foi fundamental para o sucesso do plano criminoso. Ao se passar por um ministro religioso, Antônio Gomes da Silva conseguiu transparecer uma imagem de vulnerabilidade e paz, o que fez com que o advogado Roberto Zampieri sequer desconfiasse de que estava diante de seu futuro algoz. A investigação apurou que o réu chegou a conversar com a vítima em ocasiões anteriores ao crime.
Um ponto que intrigou os investigadores foi o fato de que, apesar do disfarce físico, Antônio utilizava seu nome verdadeiro durante as interações no escritório. A análise de dados telemáticos revelou trocas de mensagens entre o número pessoal de Zampieri e o executor, reforçando a tese de que o assassino buscou estabelecer um contato prévio para facilitar a aproximação final. Essa tática de “proximidade controlada” é comum em crimes de pistolagem profissional, onde o executor busca identificar vulnerabilidades na segurança da vítima.
O crime e a logística da execução no Bosque da Saúde
A execução ocorreu na noite de 5 de dezembro de 2023. Roberto Zampieri deixava seu escritório e já estava dentro de seu veículo, um Fiat Strada, quando foi surpreendido. O assassino disparou cerca de 10 tiros contra o advogado, não dando qualquer chance de defesa. Imagens de câmeras de segurança capturadas na região mostraram que o criminoso agiu de rosto descoberto, mas utilizou um artifício inusitado: uma caixa para abafar o som dos disparos, tentando evitar uma reação imediata de testemunhas ou policiais próximos.
Após os disparos, o executor fugiu a pé, desaparecendo nas ruas adjacentes ao Bosque da Saúde. O depoimento de José Marcos Marini, amigo próximo de Zampieri que ouviu os tiros, foi um dos momentos de maior tensão no Tribunal do Júri. A acusação, liderada pelos promotores Samuel Frungilo e Vinícius Gahyva, sustenta que o crime foi meticulosamente planejado e financiado por uma estrutura hierárquica clara.
A estrutura do crime: financiador, contratante e executor
O Ministério Público de Mato Grosso aponta que o assassinato de Roberto Zampieri não foi um ato isolado, mas uma operação contratada. Além de Antônio Gomes da Silva (o executor), figuram como réus Hedilerson Fialho Martins Barbosa, apontado como o contratante e proprietário da arma utilizada, e o coronel do Exército, Etevaldo Luiz Caçadini de Vargas, identificado como o financiador da empreitada criminosa.
De acordo com a denúncia, o coronel Etevaldo teria pago a quantia de R$ 40 mil para que a execução fosse realizada. O valor teria sido distribuído entre os envolvidos na logística e na execução direta. Este julgamento ocorre após um adiamento anterior, em julho, quando o Conselho de Sentença precisou ser dissolvido devido a problemas de saúde de um dos jurados, o que aumentou a expectativa pública por um desfecho judicial para o caso.
Impactos colaterais e a crise no Judiciário
Embora o julgamento atual foque na autoria material do homicídio, a morte de Roberto Zampieri abriu uma “caixa de Pandora” no estado. A perícia realizada no celular do advogado após o crime revelou indícios de um esquema de venda de sentenças envolvendo lobistas e magistrados do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). Embora a polícia afirme que o assassinato em si não tenha relação direta com os desembargadores afastados, o conteúdo do aparelho tornou-se a base para uma investigação federal de larga escala.
O caso Zampieri tornou-se um divisor de águas para a advocacia e para a segurança pública em Mato Grosso, expondo a vulnerabilidade de profissionais do Direito e a complexidade das redes de influência que operam nos bastidores do poder. O desfecho deste júri é aguardado como um marco na luta contra a impunidade em crimes de mando no estado.
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