Brasil x Haiti: Copa vira alguma felicidade para um país sem paz
O Haiti é o único país soberano da face da Terra que teve sua independência conquistada e declarada por escravos. Historiadores estimam que, ao longo do século XVIII, 4 milhões de pessoas tenham sido forçadas a deixar diversas regiões da África para trabalhar e morrer para encher os bolsos dos colonizadores franceses. O ouro branco, o açúcar, e o café eram produzidos no Haiti, então a colônia mais rentável das Américas.
Em 1793, na esteira das ideias da própria Revolução Francesa, começou uma revolução de escravos que, entre idas e vindas, alianças feitas e desfeitas, traições, envolvimento de atores externos (Inglaterra, Espanha, Estados Unidos), confrontos internos, febre amarela, sangue e mortes, acabou na declaração de independência de 1804. O que veio depois disso foram anos, décadas, séculos, até, de sufocamento econômico.
O Haiti não é o desastre que é hoje à toa. O Haiti não é o que é hoje por que o povo preto é indolente, incompetente e incapaz de se organizar e prosperar, como proclamavam os franceses. O Haiti é o desastre que é hoje porque, para as potências da época (e de hoje?), simplesmente não era uma boa ideia que escravos do mundo inteiro se inspirassem nos que haviam matado ou tocado os colonizadores para fora do Haiti.
Para a França reconhecer a independência do Haiti, 21 anos depois de tal independência ter sido conquistada de fato, na marra, o país caribenho precisou contrair uma dívida simplesmente impossível de ser paga. Uma dívida que se transformou em outras dívidas com bancos, adivinhem, franceses e norte-americanos. Dívidas estas que justificaram que os Estados Unidos tomassem o controle em 1925 e simplesmente limpassem os cofres do Banco Nacional do Haiti.
Depois de ter vencido o poderoso o exército de Napoleão – com a providencial ajuda dos mosquitos, é verdade -, o Haiti foi roubado, bloqueado e penalizado por ser o que ele quis ser. Esta conta continua chegando até hoje. Nenhum governo para em pé. A democracia é um devaneio. Estabilidade, nunca existiu.
As coisas no Haiti seguem sendo resolvidas da mesma maneira há 200 anos – com tiros, sangue e crueldade.
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