Documentos revelam kits odontológicos a R$ 11,99 e levantam questionamentos de sobrepreços em compras da Prefeitura de Cuiabá
JB News
Por Nayara Cristina
Kits a R$ 11,99 e contrato de R$ 9,6 milhões: documentos colocam política de compras da gestão Abílio em debate
A promessa era reduzir gastos, aumentar a eficiência e acabar com aquilo que o prefeito Abílio Brunini classificava como distorções existentes no modelo de compras realizado por meio dos consórcios públicos. Pouco mais de um ano depois, documentos obtidos pela reportagem revelam números que começam a provocar questionamentos dentro da Câmara Municipal de Cuiabá e podem abrir uma nova frente de debates sobre a política de aquisições adotada pela atual gestão.
No centro da discussão estão contratos relacionados à saúde bucal de estudantes da rede municipal de ensino. De um lado, documentos mostram que o Consórcio Intermunicipal de Saúde Vale do Rio Cuiabá (CISVARC) adquiriu kits odontológicos infantis completos pelo valor unitário de R$ 11,99. De outro, a Prefeitura de Cuiabá firmou um contrato de R$ 9.612.400,00 para aquisição da chamada Coleção Construir Sorrisos, um pacote educacional voltado à saúde bucal que possui valor unitário de R$ 200 por aluno atendido.
A diferença entre os números passou a despertar a atenção de vereadores justamente porque a atual administração construiu parte de seu discurso político na crítica ao sistema de compras compartilhadas realizado pelos consórcios. A justificativa apresentada era de que a aquisição direta permitiria mais transparência, maior controle e economia aos cofres públicos.
Os documentos analisados pela reportagem mostram que, em setembro de 2024, o CISVARC comprou da empresa Gift do Brasil Ltda. um total de 12 mil kits odontológicos infantis, sendo 10 mil unidades destinadas a crianças de 3 a 9 anos e outras 2 mil voltadas ao atendimento de crianças de até 3 anos. O valor unitário foi fixado em R$ 11,99, resultando em uma despesa total de R$ 143.880,00. Os kits continham escova dental, creme dental, fio dental, limpador de língua e estojo organizador, além de atenderem especificações técnicas recomendadas para o público infantil.
Já a contratação realizada pela Prefeitura seguiu outro caminho. Em dezembro de 2025, a Secretaria Municipal de Educação formalizou contrato com a empresa Cerrado Editora e Serviços Ltda., sediada em Goiânia, para fornecimento de material paradidático voltado à educação em saúde bucal. O contrato prevê a distribuição de mais de 48 mil conjuntos educacionais para alunos da pré-escola ao 5º ano do ensino fundamental. Cada conjunto foi contratado pelo valor de R$ 200, totalizando R$ 9,6 milhões.
A Prefeitura sustenta que não se trata apenas de um kit odontológico. Segundo o contrato, cada conjunto é composto por material educacional da criança, livro didático, guia da família, caderneta de saúde bucal e kit de higiene bucal. É justamente esse detalhe que passou a ser o principal alvo dos questionamentos.
O que vereadores e órgãos de fiscalização querem saber agora é quanto efetivamente custou o kit odontológico dentro desse pacote de R$ 200. Isso porque os documentos do contrato não individualizam os valores dos componentes, impossibilitando identificar quanto foi pago pelos materiais pedagógicos e quanto foi destinado aos itens de higiene bucal.
A discussão ganhou força nesta terça-feira durante sessão da Câmara Municipal. O vereador Ide Taques do (Posemos), afirmou ter tomado conhecimento das informações por meio de reportagens publicadas pela imprensa e defendeu que a Prefeitura apresente esclarecimentos detalhados sobre as contratações.
Segundo o parlamentar, independentemente de posição política, a Câmara tem a obrigação de verificar se as escolhas administrativas produziram efetivamente economia para os cofres públicos. Ele também defendeu que a Comissão de Saúde acompanhe o caso e analise os documentos relacionados às compras realizadas pela gestão municipal.
A polêmica surge em um momento delicado para a administração municipal, que já enfrenta questionamentos sobre gastos públicos e contratos firmados em diferentes áreas da gestão. Agora, a comparação entre os valores praticados pelo consórcio e aqueles desembolsados pela Prefeitura passa a alimentar uma nova cobrança: a de que o Executivo demonstre, de forma transparente, onde está a economia prometida quando decidiu abandonar o modelo de compras compartilhadas.
Embora os documentos disponíveis não permitam afirmar que houve irregularidade ou superfaturamento, eles revelam uma diferença expressiva entre os valores envolvidos e abrem espaço para uma discussão inevitável. Se a principal justificativa para deixar os consórcios era gastar menos, os números agora exigem uma explicação detalhada sobre os resultados alcançados por essa mudança de estratégia.
A partir de agora, a controvérsia deixa o campo do discurso político e entra no terreno dos documentos. E é justamente nos documentos que vereadores, órgãos de controle e a própria população buscarão as respostas para uma pergunta simples: a nova política de compras da Prefeitura de Cuiabá realmente trouxe economia aos cofres públicos?
O avanço dos questionamentos ocorre em meio a um ambiente político já marcado por sucessivas tentativas de instalação de comissões parlamentares de investigação na Câmara de Cuiabá. Nos últimos meses, propostas de CPIs voltadas à apuração de atos da atual administração acabaram não prosperando, mas as denúncias envolvendo contratos públicos continuaram alimentando debates entre vereadores e órgãos de fiscalização.
A pressão sobre a gestão municipal aumentou ainda mais após o próprio prefeito Abílio Brunini denunciar a existência de um suposto rombo de aproximadamente R$ 80 milhões na Secretaria Municipal de Educação. Posteriormente, o ex-secretário da pasta, Amauri Monge, rebateu a versão apresentada pelo Executivo e afirmou publicamente que a administração municipal teria realizado uma pedalada fiscal superior a R$ 100 milhões. As declarações ampliaram o clima de desconfiança em torno das contas da educação municipal e passaram a compor o conjunto de fatos que hoje impulsiona pedidos de esclarecimentos, levantamentos documentais e novas investigações sobre contratos, materiais didáticos e aquisições ligadas à saúde bucal dos estudantes da rede pública de ensino.
Veja os documentos:
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