O sorgo, um cereal de origem africana conhecido pela sua rusticidade e ampla utilização na fabricação de ração animal, começa a trilhar um caminho diferente nas lavouras e indústrias brasileiras. Com alta tolerância à seca e custos de cultivo competitivos, o grão, que se consolidou no país a partir da década de 1970, agora protagoniza uma iniciativa que busca elevar seu status comercial: a produção de cerveja artesanal.
Uma multinacional do setor de sementes, a Advanta Seeds, com sede global em Dubai e operação brasileira em Campinas (SP), decidiu testar a viabilidade econômica do cereal em produtos de linha premium. O projeto, que utiliza o grão in natura, visa demonstrar que o sorgo possui potencial para ocupar espaços mais nobres na mesa do consumidor, indo muito além dos cochos de alimentação pecuária.
Desafios técnicos na produção artesanal
A criação da bebida ficou a cargo do cervejeiro paulistano Alexandre Xerxenevsky, da Xcraft Beer. O desafio técnico foi considerável, uma vez que a indústria não dispõe, atualmente, de uma versão maltada do sorgo em larga escala, o que simplificaria o processo produtivo. Sem o malte, o cervejeiro precisou adaptar todo o fluxo de fabricação dentro da cervejaria.
Para transformar o amido do grão em açúcares fermentáveis, a equipe teve que implementar etapas rigorosas de gelatinização e o uso de enzimas específicas. O processo é sensivelmente mais complexo e exige maior gasto energético do que a utilização da cevada convencional. Para produzir 300 litros de cerveja, foram necessários cerca de 70 quilos de sorgo, revelando que, embora a matéria-prima seja barata, o custo de processamento ainda é um fator de atenção.
Potencial de mercado e valor nutricional
Além da inovação no paladar, que, segundo o mestre cervejeiro, remete ao sabor da quinoa, o sorgo carrega um atributo estratégico: é naturalmente isento de glúten. Essa característica abre portas para um segmento de mercado em constante expansão, focado em consumidores com restrições alimentares ou que buscam alternativas à proteína do trigo e da cevada.
Pedro Lima, gerente de marketing da Advanta Seeds, reforça que o objetivo da empresa é fomentar o uso do grão em toda a cadeia de alimentos e bebidas. “O milho e a soja são muito conhecidos no país, mas o sorgo ainda não é tão difundido. Como trabalhamos com essa cultura, pensamos em mostrar ao mercado consumidor que o sorgo pode ser cada vez mais utilizado”, afirma o executivo.
Perspectivas para a cadeia produtiva
A experiência com a cerveja de estilo American Pale Ale serve como um laboratório para o agronegócio brasileiro. A expectativa é que, com o aumento da demanda por usos alternativos, o setor possa investir no processamento industrial do grão, como a criação de maltarias especializadas em sorgo. Isso reduziria os custos de produção e tornaria o ingrediente mais acessível para cervejarias de todos os portes.
O movimento também dialoga com tendências globais de consumo, especialmente na Ásia, onde o grão já possui tradição na culinária humana. Enquanto a indústria avalia o sucesso do protótipo e possíveis desdobramentos — como o uso do resíduo da produção em receitas culinárias —, o sorgo reafirma sua importância como uma alternativa versátil e resiliente para o campo brasileiro.
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