“A base está machucada”, diz Paula Calil ao justificar derrota na votação da LDO na Câmara de Cuiabá
“Tá machucada, né?”: Paula Calil admite desgaste da base após derrota da LDO e diz que Câmara vive falta de consenso
A rejeição da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 pela Câmara Municipal de Cuiabá aprofundou a crise política entre o Executivo e o Legislativo e evidenciou o momento de fragilidade vivido pela base do prefeito Abilio Brunini dentro da Casa de Leis. Questionada se a derrota da proposta havia deixado a base governista arranhada, a presidente da Câmara, Paula Calil, respondeu de forma direta: “Tá machucada, né?”. Para ela, o resultado da votação escancarou a falta de consenso entre os vereadores em meio à disputa pela Mesa Diretora e abriu um novo capítulo da crise política na capital.
Paula explicou que a LDO foi apreciada em segunda votação, mas não alcançou os 14 votos exigidos para a aprovação por maioria absoluta. O projeto recebeu apenas 12 votos favoráveis e oito contrários. Segundo a presidente, alguns vereadores justificaram ausência no início da sessão, enquanto outros permaneceram em plenário, mas optaram por não votar, impedindo que a matéria fosse aprovada.
A presidente fez questão de ressaltar que toda a tramitação da proposta ocorreu dentro da legalidade. Segundo ela, a LDO chegou à Câmara no dia 29 de maio, foi apresentada oficialmente aos vereadores em 9 de junho, recebeu emendas parlamentares, passou pela Comissão de Fiscalização e Acompanhamento da Execução Orçamentária e pela Comissão de Constituição, Justiça e Redação (CCJ), foi debatida em duas audiências públicas e teve os pareceres aprovados antes de retornar ao plenário para a votação definitiva.
Na avaliação da parlamentar, o resultado demonstrou que a Câmara vive hoje um cenário de divisão política provocado pela disputa da próxima Mesa Diretora. “A prova está aí. Hoje nós não temos esse consenso”, afirmou. Para ela, projetos estruturantes não deveriam ser contaminados pela disputa interna, pois quem acaba pagando a conta é a população de Cuiabá.
Paula afirmou que sempre defendeu uma relação harmoniosa entre Executivo e Legislativo e que momentos de tensão institucional prejudicam diretamente a cidade. Segundo ela, os poderes são independentes, mas precisam manter diálogo permanente para garantir o andamento das políticas públicas. “Esse momento de tensão não é bom para Cuiabá. Não era isso que nós queríamos”, declarou.
Ao comentar a disputa pela presidência da Câmara para o próximo biênio, Paula rebateu críticas de que estaria movida por interesses pessoais. Disse que jamais colocou seu nome por ambição de poder e lembrou que inicialmente sequer pretendia disputar a reeleição. Segundo ela, sua candidatura surgiu porque passou a representar o consenso de um grupo de vereadores. “Nós somos um grupo. Se o meu nome é o consenso, nós vamos lutar juntos. Se não der certo, faremos novos alinhamentos. O importante é fortalecer a instituição”, afirmou.
Ela também detalhou o impasse envolvendo a data da eleição da Mesa Diretora. Explicou que o vereador Mário Nadaf apresentou inicialmente uma proposta para realizar a eleição em novembro, enquanto outro grupo defendia a votação em 1º de outubro. Sem consenso, surgiu uma alternativa para que a eleição ocorra logo após as eleições gerais. A proposta seguirá agora a tramitação prevista para alterações da Lei Orgânica, passando pelas comissões, votação em plenário e pelo período regimental de interstício antes da deliberação final.
Sobre o fato de vereadores passarem a se declarar independentes durante a disputa, Paula afirmou que não possui uma base própria dentro da Câmara. Segundo ela, como presidente da Casa, sua obrigação é administrar os trabalhos dos 27 parlamentares com imparcialidade, assegurando igualdade de tratamento e respeito às prerrogativas de todos.
A presidente também negou que exista subserviência do Legislativo ao Executivo. Na avaliação dela, integrar a base significa apoiar matérias consideradas importantes para Cuiabá, sem impedir que cada vereador exerça sua função fiscalizadora e vote conforme sua convicção.
Ao comentar o rompimento político anunciado pelos vereadores Dilemário Alencar e Baixinha Giraldelli, Paula afirmou que havia um alinhamento firmado entre um grupo de 14 vereadores para permanecer unido até o encerramento das negociações sobre as mudanças nas regras da eleição da Mesa Diretora. Ela disse respeitar o posicionamento dos dois parlamentares, mas reconheceu que a decisão alterou o cenário político construído até então.
Segundo a presidente, a mudança ocorreu justamente no dia em que o grupo tomou conhecimento da decisão judicial relacionada ao mandado de segurança apresentado pelo vereador Marcos Brito. Ela esclareceu que o pedido feito por Brito não buscava retirar a matéria de pauta, mas permitir que ela fosse apreciada por maioria simples. No entanto, a decisão judicial determinou a retirada do projeto da pauta, fato que, segundo Paula, foi uma circunstância externa e que precisava ser integralmente cumprida pela Câmara. “Decisão judicial se cumpre”, resumiu.
Apesar do acirramento político, Paula afirmou acreditar que o diálogo ainda poderá reconstruir o entendimento entre os vereadores após a definição da Mesa Diretora. Segundo ela, disputas eleitorais naturalmente elevam os ânimos, mas não podem comprometer o funcionamento institucional do Legislativo.
Ao falar sobre a derrota da LDO, a presidente voltou a afirmar que o maior prejudicado não é o Executivo nem o Legislativo, mas a população cuiabana. “Quem perde é Cuiabá. Quando matérias importantes deixam de ser aprovadas, quem perde é a população”, declarou.
Com a rejeição da proposta, o Executivo deverá encaminhar um novo projeto da Lei de Diretrizes Orçamentárias, reiniciando praticamente toda a tramitação legislativa, com abertura de novo prazo para apresentação de emendas, análise das comissões e nova votação em plenário. A Procuradoria da Câmara ainda deverá definir os procedimentos jurídicos que serão adotados para dar continuidade ao processo.
Mesmo reconhecendo que a base governista saiu politicamente desgastada após a votação, Paula Calil afirmou que acredita na reconstrução da harmonia entre Executivo e Legislativo. Para ela, passada a disputa pela Mesa Diretora, a prioridade deverá voltar a ser a aprovação de projetos considerados essenciais para o desenvolvimento de Cuiabá e para o atendimento das demandas da população.
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