Castroneves relembra bastidores de teste ‘sabotado’ da F1
Dono de uma das carreiras mais bem-sucedidas do automobilismo norte-americano, Helio Castroneves tem um capítulo marcante e pouco explorado de sua trajetória: a chance de ter ingressado na Fórmula 1 no início dos anos 2000.
Em entrevista ao Podcast Motorsport.com, o tetracampeão das 500 Milhas de Indianápolis deu detalhes dos bastidores do teste que realizou com a Toyota e como uma metáfora de Roger Penske definiu seu futuro. O teste, viabilizado após o triunfo Indy 500 de 2001 e a parceria com a fabricante japonesa na Indy, tinha tudo para ser a porta de entrada de Helinho no grid do Mundial. No entanto, o brasileiro descobriu logo de início que o ambiente político da F1 não seria simples.
“Chegou o cara [da equipe] e disse: ‘Poxa, você tá indo super bem, hein? Que pena que a gente já assinou esse assento com outro piloto’. Eu falei: ‘Como assim se eu estou fazendo o teste aqui?’. ‘Ah, esse teste é só para você ficar contente’”, revelou Castroneves, referindo-se à vaga que acabou ficando com Cristiano da Matta para 2003.
‘Vou enfiar esse carro na parede’
Ao perceber que cumpria apenas um compromisso protocolar, a frustração tomou conta nas primeiras saídas com o tanque cheio em Paul Ricard (França). O sentimento de raiva, porém, virou combustível dentro do cockpit.
“Eu estava uns 10 segundos [atrás], olhando pro céu e pensando: ‘Pô, o que eu estou fazendo aqui, cara? Perdendo tempo’. Aí de repente falei: ‘Sabe o quê? Vou enfiar esse carro numa parede, cara! Quero mais é entregar o volante para ele’. Só que aí o carro começou a aceitar. Quando você vai frear, o carro parava, o carro virava… Aí você vai animando!”, contou.
O ritmo forte impressionou os engenheiros de pista e a própria equipe de mecânicos. Ao retornar aos boxes, Helinho viu uma reação atípica para os padrões da categoria.
“Eu cheguei no box e os mecânicos batendo palma. Eu só tinha visto isso na Fórmula 3! Os caras: ‘Nossa, o tempo está muito bom, vamos pôr pneu novo e bater o recorde da pista? Bora!’”
A tentativa de colocar pneus novos para buscar a marca da pista esbarrou na política interna. A direção alegou limitação de quilometragem do motor V10. Quando a equipe de box se preparava para liberá-lo mesmo assim, uma falha conveniente encerrou o treino:
“Eu falei: ‘Vocês gastam quase 1 bilhão de dólares aqui, acha que o motor vai… Põe aí, pô!’. Quando saí… ‘Quebrou o hidráulico’. Hidráulico o cacete! Puxaram a mangueirinha ali porque já tinham assinado, né?”, comentou.
Apesar do impasse, a Toyota ofereceu a Castroneves o posto de piloto de testes em tempo integral para o ano seguinte. Antes de tomar qualquer decisão, o brasileiro procurou o chefe Roger Penske para pedir conselho — e ouviu uma resposta categórica que encerrou as negociações com a F1.
“O Roger virou e falou: ‘Hélio, não dá para você… Você é uma bolsa Louis Vuitton. E eles querem te colocar para vender no Walmart. Como piloto de teste você vai ser um Walmart, você não vai estar correndo’”, finalizou o piloto, que optou por seguir nos Estados Unidos, onde construiu uma das trajetórias mais vitoriosas da história da Indy.
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