Como servidores da SES teriam criado falsa dívida com agiotas para arrancar R$ 1,1 milhão de colega
JB News
Por Emerson Teixeira
Durante quase três anos, uma servidora da Secretaria de Estado de Saúde de Mato Grosso (SES-MT) viveu sob o medo constante de ser assassinada junto com sua família. A cada dia surgia uma nova cobrança, uma nova ameaça e um novo pagamento. O que parecia ser uma dívida milionária com agiotas, segundo a Polícia Civil, nunca existiu. Era parte de um elaborado esquema de manipulação psicológica que teria sido arquitetado por colegas de trabalho para extorquir mais de R$ 1,1 milhão da vítima.
As revelações vieram à tona com a Operação Laço Oculto, deflagrada pela Delegacia Especializada de Roubos e Furtos (Derf) de Cuiabá. A investigação aponta como principais envolvidos os servidores da SES Fernanda Leite da Matta e Deiwson Ortelhado, além de um policial militar e outras pessoas suspeitas de participar da movimentação e ocultação dos recursos obtidos com a fraude.
Segundo a investigação, o esquema começou de forma aparentemente simples. Deiwson Ortelhado teria pedido à colega que emprestasse sua conta bancária para receber um depósito, alegando dificuldades financeiras. Após conquistar a confiança da servidora, surgiu a informação de que sua conta e seu CPF haviam sido utilizados em uma negociação envolvendo supostos agiotas.
Foi a partir desse momento que, conforme a Polícia Civil, iniciou-se uma sofisticada estratégia de manipulação emocional. Fernanda Leite da Matta teria assumido o papel de intermediadora entre a vítima e os supostos criminosos. Ela dizia receber ligações constantes, afirmava negociar os valores da dívida e relatava que os agiotas estariam monitorando a rotina da servidora e de seus familiares.
Cada conversa aumentava o clima de terror. A vítima era convencida de que, se não efetuasse novos pagamentos, poderia ser morta juntamente com seus parentes. Os investigados sustentavam que os juros aumentavam diariamente e que qualquer atraso poderia resultar em represálias violentas.
Tomada pelo medo, a servidora passou a vender patrimônio, contratar empréstimos bancários, utilizar o limite dos cartões de crédito, sacar recursos da previdência privada e comprometer economias destinadas à construção da própria residência. Em um dos episódios apurados, ela ainda foi convencida a financiar uma caminhonete que seria utilizada pelo marido da principal investigada, permanecendo responsável pelo pagamento das parcelas.
A quebra dos sigilos bancários revelou que R$ 1.132.680 foram transferidos diretamente para contas ligadas à investigada Fernanda Leite da Matta. A investigação identificou ainda que parte do dinheiro foi pulverizada entre outras pessoas, indicando uma estrutura destinada a dificultar o rastreamento dos valores.
Os investigadores também encontraram movimentações financeiras incompatíveis com a renda dos investigados, elevado número de saques em dinheiro vivo e intensa circulação de recursos entre contas bancárias. Um dos alvos chegou a movimentar aproximadamente R$ 7 milhões, reforçando as suspeitas de lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial.
Para a Polícia Civil, o grupo explorou a vulnerabilidade emocional da vítima por meio de uma verdadeira engenharia do medo. A falsa narrativa da dívida com agiotas era constantemente alimentada para manter a servidora em estado permanente de desespero, impedindo que ela procurasse ajuda ou desconfiasse do golpe.
A fraude somente começou a ser descoberta quando o marido da vítima percebeu o grave abalo emocional da esposa e identificou as sucessivas transferências bancárias. A denúncia levou à abertura do inquérito policial, que culminou na Operação Laço Oculto.
Nesta fase da investigação, a Justiça determinou cinco mandados de busca e apreensão, bloqueio de contas bancárias, sequestro de bens e apreensão de veículos. As medidas judiciais ultrapassam R$ 3,3 milhões e buscam assegurar a recuperação do patrimônio supostamente obtido por meio da extorsão.
Embora ninguém tenha sido preso até o momento, os investigados poderão responder pelos crimes de extorsão, lavagem de dinheiro, associação criminosa e agiotagem. A Polícia Civil também apura se outras pessoas participaram do esquema e se há novas vítimas da organização, considerada pelos investigadores uma das mais sofisticadas fraudes psicológicas já descobertas envolvendo servidores públicos em Mato Grosso.
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