El Niño: ondas de calor mataram 120 mil de 2000 a 2019 – 21/06/2026 – Marcelo Leite


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Entrou na moda, pelo menos no Sudeste e no Sul, se queixar do frio (no verão, todo mundo amaldiçoava o calor). Apesar do incômodo, ninguém faz nada a respeito, quando muito jogar um casaco velho na caixa de papelão na academia ou no supermercado.

Reclamar do tempo vale tanto quanto criticar a corrupção. Não muda nada. Se as pessoas parassem para pensar, reconheceriam que morre gente por causa da indiferença. Quantos aparelhos de ar condicionado ou remédios que salvam vidas daria para comprar com os R$ 50 bilhões de fiado que Vorcaro pendurou no FGC?

Muita gente até hoje não se importa com as 400 mil mortes por Covid, do total de 700 mil no país, que poderiam ter sido evitadas se o governo Bolsonaro tivesse feito as coisas certas contra a pandemia. Tanto é que muitos se declaram prontos a votar no 01 que recebeu vários milhões do banqueiro amigo da onça.

Os crimes abundam, alguns puníveis pela lei, outros nem tanto, mesmo cometidos contra a humanidade. Não se deve esquecer, com El Niño batendo à porta, que o ex-presidente apenado também capitaneou ofensiva contra a ciência do clima, o que soava como música sertaneja para o agronegócio negacionista que agora quer espetar dívida de R$ 30 bilhões na conta da viúva.

O custo da inação diante da mudança do clima, seja para diminuir as emissões de carbono (desmatamento do agro é a fonte principal), seja para adaptar a população e a infraestrutura para eventos extremos, se mede também em vidas. Em duas décadas, 120 mil vidas.

O cálculo funéreo consta de levantamento estatístico realizado pela Fiocruz para o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), “Saúde e Ondas de Calor: Mortalidade, Morbidade e Implicações para o SUS no Brasil”. Como todo trabalho sério por aqui, corre risco de passar despercebido. Quem achar que Alcolumbre, Motta et caterva vão prestar atenção que atire a primeira pauta-bomba.

À primeira vista, 120 mil óbitos por problemas cardiovasculares e respiratórios de 2000 a 2019 parecem pouco. Na média, dá 6.000 mortes evitáveis por ano. Comparadas com 42.590 homicídios ocorridos em 2024, parece fichinha.

Fixar-se nos números implica uma perspectiva errada sobre a questão. Toda morte que pode ser evitada deve ser evitada. Vale para o quantitativo de assassinatos, vale para as mortes causadas por ondas de calor resultantes do aquecimento global, mesmo que estas sejam só um sétimo daqueles.

Há também em jogo o problema das tendências. Homicídios estão em queda (talvez subam um pouco nos próximos meses, igualmente por efeito das temperaturas extremas), enquanto mortes nas ondas de calor estão em alta. Nos dois casos, a previsão de El Niño muito forte constitui péssima notícia.

Mesmo deixando estatísticas de lado, o estudo Fiocruz/MCTI ganha relevância por representar nova comprovação de que a crise do clima não está no futuro, já chegou. Na realidade, como mostra esse trabalho científico e um sem-número de outros, seus efeitos devastadores começaram décadas atrás.

Acumular evidências, entretanto, leva tempo. Tempo que encolhe a olhos vistos, numa época em que elas contam cada vez menos, sob o império das narrativas.


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