Em “papo de amigos”, Wellington e Natasha fazem propaganda e deixam problemas ambientais de MT sem respostas concretas
JB News
Por José Teixeira
No confronto direto, candidatos apresentaram promessas sobre mercado de carbono, queimadas e saúde climática, mas evitaram aprofundar problemas históricos, como assoreamento dos rios, desmatamento, falta de orçamento, fiscalização precária e destruição provocada pelo fogo
O debate sobre meio ambiente entre Wellington Fagundes (PL) e Natasha Slhessarenko (PSD) terminou marcado muito mais pela apresentação de propostas e pela divulgação das ações atribuídas aos próprios candidatos do que por um confronto efetivo sobre os graves problemas ambientais enfrentados por Mato Grosso. A pergunta feita por Wellington à adversária abriu espaço para um verdadeiro “papo de amigos”, com pouca cobrança, nenhuma contestação direta e respostas que passaram longe de aprofundar questões que se repetem há anos no Estado.
Ao ser questionada sobre como realizar uma boa gestão ambiental sem orçamento suficiente, Natasha defendeu a construção de um Estado sustentável, com responsabilidade ambiental, preservação das matas ciliares e limpeza dos rios. Ela chamou atenção especialmente para a situação do Rio Cuiabá, que, segundo afirmou, sofre com o acúmulo de sujeira e com a degradação ambiental.
“Nós queremos fazer um Estado realmente sustentável, que tenha responsabilidade ambiental, sustentabilidade com preservação das matas ciliares e limpeza dos rios. O Rio Cuiabá, o nosso rio, está sofrendo demais com a sujeira”, declarou.
A candidata também relacionou as mudanças climáticas à economia e à saúde pública. Natasha destacou que Mato Grosso possui uma economia fortemente dependente da agricultura e, consequentemente, das condições do clima. Segundo ela, os efeitos dos eventos extremos não atingem somente a produção agropecuária, mas também contribuem para aumentar a procura por atendimento médico, principalmente entre crianças e idosos.
Apesar do diagnóstico geral, a resposta não detalhou de onde sairiam os recursos para financiar as medidas anunciadas. Também não apresentou metas, prazos ou valores para enfrentar problemas históricos, como o assoreamento dos rios, a degradação das nascentes, os incêndios recorrentes, o avanço do desmatamento e a falta de estrutura dos municípios para fiscalizar crimes ambientais.
Wellington, por sua vez, utilizou parte do tempo para destacar sua atuação como médico-veterinário e parlamentar. O candidato citou a luta pela criação do Estatuto do Pantanal, iniciada após o grande incêndio que, conforme relatou, consumiu aproximadamente 4 milhões de hectares do bioma. Também mencionou a implantação do Instituto Nacional de Pesquisa do Pantanal, em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso e com o senador Marcos Pontes.
Ao apresentar suas propostas, Wellington prometeu enfrentar as mudanças climáticas por meio de três eixos: renda verde, resiliência urbana e saúde climática. No primeiro, defendeu a criação de um mercado estadual de carbono e de um sistema de pagamento por serviços ambientais destinado a remunerar produtores rurais que preservem áreas de floresta e Cerrado.
O candidato afirmou ainda que pretende buscar recursos de compensação ambiental no Brasil e no exterior. Embora tenha declarado conhecer os caminhos para acessar esses investimentos, não explicou como funcionaria o mercado estadual de carbono, quais produtores poderiam participar, quais seriam os critérios de remuneração nem qual seria o impacto financeiro da proposta sobre o orçamento estadual.
No eixo da resiliência urbana, Wellington prometeu criar um sistema inteligente para auxiliar os municípios na prevenção de secas severas, incêndios florestais e ondas de calor, especialmente diante dos eventos relacionados ao El Niño. Já na área da saúde climática, propôs a implantação de protocolos rápidos nos hospitais para atender crianças e idosos afetados por doenças respiratórias provocadas pela fumaça das queimadas.
“Nós vamos criar protocolos rápidos nos hospitais, porque temos urgência para que idosos e crianças possam ser prevenidos das doenças respiratórias causadas pelas fumaças e queimadas”, afirmou.
As propostas, entretanto, ficaram concentradas no campo das intenções. O debate não avançou sobre a estrutura necessária para garantir monitoramento ambiental permanente, responsabilização dos causadores de incêndios, ampliação das equipes de fiscalização, recuperação das áreas degradadas e apoio financeiro aos municípios mais atingidos.
Também foi defendida a criação de um sistema de monitoramento capaz de emitir alertas antes do avanço das queimadas, permitindo a abertura de aceiros ao longo das rodovias e a adoção antecipada de medidas de combate ao fogo. Agosto e setembro foram citados como os meses mais críticos, período em que a fumaça compromete a produção rural, a saúde da população e a qualidade do ar em diferentes regiões de Mato Grosso.
Durante a discussão, também foram mencionadas parcerias com a Universidade Federal de Mato Grosso, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, o Corpo de Bombeiros e outras instituições. Entre as ações lembradas esteve a instalação de uma unidade do Corpo de Bombeiros em Poconé, realizada com participação do senador Jayme Campos, além da aquisição de equipamentos, inclusive importados pelo Governo do Estado, para o combate aos incêndios no Pantanal.
Mesmo diante da gravidade do tema, o confronto direto praticamente não aconteceu. Wellington e Natasha evitaram cobranças mais duras e não discutiram de maneira aprofundada as causas estruturais da crise ambiental. O resultado foi uma rodada cordial, marcada pela promoção de currículos, programas e promessas, mas sem respostas objetivas para problemas que atingem Mato Grosso há décadas.
Ficaram sem o devido aprofundamento temas como a poluição e o assoreamento do Rio Cuiabá, a recuperação das matas ciliares, a degradação do Pantanal, a fiscalização do desmatamento ilegal, o impacto dos incêndios sobre comunidades tradicionais, a insuficiência de recursos para os órgãos ambientais e a responsabilização daqueles que provocam queimadas criminosas.
Em um Estado cuja economia depende diretamente do equilíbrio entre produção e preservação, o debate ambiental exigia mais do que declarações genéricas e apresentação de realizações pessoais. Mato Grosso enfrenta todos os anos o fogo, a fumaça, a redução do volume dos rios e os prejuízos à saúde e ao agronegócio. Ainda assim, a rodada terminou sem que os candidatos fossem pressionados a explicar quanto pretendem investir, quando as ações começariam e como as promessas sairiam efetivamente do papel.
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