Laranja do CV vivia em casa de madeira e escondia apartamento de R$ 6 milhões à beira-mar para facção, diz delegado sobre alvo da operação Replay
JB News
Da redação
Um homem que levava uma vida simples em uma casa de madeira, em Cuiabá, chamou a atenção da Polícia Civil ao aparecer como proprietário de um apartamento de luxo avaliado em mais de R$ 6 milhões, localizado de frente para o mar, em Balneário Camboriú (SC). A discrepância entre o padrão de vida e o patrimônio milionário se transformou em uma das principais provas do sofisticado esquema de lavagem de dinheiro desmontado nesta quinta-feira (30), durante a Operação Replay, deflagrada pela Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco).
Segundo as investigações, o imóvel não pertencia de fato ao suspeito. Ele teria atuado como “laranja” do Comando Vermelho (CV), emprestando o próprio nome para ocultar o patrimônio da organização criminosa e dificultar o rastreamento dos verdadeiros donos dos bens.
Durante coletiva de imprensa, o delegado Victor Hugo Caetano afirmou que a descoberta do apartamento de luxo em nome de uma pessoa sem qualquer capacidade financeira é um exemplo claro da estratégia utilizada pelas facções para blindar o patrimônio milionário acumulado com atividades criminosas.
“Hoje foi presa uma pessoa que mora em uma casa de madeira, uma casa totalmente humilde, e no nome dessa mesma pessoa está um apartamento de R$ 6 milhões de frente para a praia em Balneário Camboriú. Essa é uma prática de utilização de pessoas interpostas. Eles não colocam nada em nome deles”, destacou o delegado.
De acordo com a Draco, o investigado tinha plena consciência do papel que desempenhava no esquema. Embora não possuísse antecedentes criminais e, aparentemente, não mantivesse vínculo direto com integrantes da facção, ele aceitou emprestar o nome para registrar bens milionários pertencentes ao grupo criminoso.
“A pessoa sabia. Ela atua como laranja. É alguém que não tem antecedentes, que, em tese, não possui ligação com o faccionado e empresta o nome para ocultar os bens”, explicou Victor Hugo.
As investigações revelam que o uso de “laranjas” fazia parte de uma estrutura altamente organizada de ocultação patrimonial. Além do registro de imóveis e veículos em nome de terceiros, a facção também utilizava procurações para manter o controle efetivo dos bens sem que seus integrantes aparecessem formalmente como proprietários.
A Polícia Civil também apura se essas pessoas recebiam dinheiro, benefícios financeiros ou outras vantagens para participar do esquema criminoso. Outra frente da investigação busca esclarecer a possível utilização de plataformas de apostas esportivas para movimentar recursos ilícitos e mascarar a origem do dinheiro, embora os detalhes dessa linha investigativa permaneçam sob sigilo.
A Operação Replay ainda revelou a participação de profissionais e pessoas ligadas ao núcleo financeiro da organização criminosa. Entre os presos está a advogada Dayane Karol Moreira da Silva, apontada como responsável por administrar imóveis e outros patrimônios ligados a Paulo Witter Farias, conhecido como “WT”, identificado pela Polícia Civil como ex-tesoureiro do Comando Vermelho em Mato Grosso e responsável pela gestão financeira da facção.
Também figuram entre os investigados o jogador de futebol amador Alex Junior Santos Alencar, o “Alex Soldado”, Emerson Ferreira Lima, conhecido como “Gordão”, e Brunno Passos, o “Brunninho”, todos suspeitos de integrar o complexo esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio.
Como resultado da operação, a Justiça determinou o bloqueio e o sequestro de aproximadamente R$ 17,28 milhões em bens considerados de origem ilícita. A medida atingiu apartamentos de alto padrão, casas de luxo, terrenos, contas bancárias e uma frota de veículos de elevado valor comercial.
Ao todo, seis carros de luxo, avaliados em mais de R$ 150 mil cada, foram apreendidos pelos policiais. Entre eles está um veículo elétrico estimado em cerca de R$ 250 mil que, segundo as investigações, era utilizado por Alex Soldado.
A Operação Replay representa mais uma etapa da ofensiva da Polícia Civil contra a estrutura financeira do Comando Vermelho em Mato Grosso. A ação é desdobramento das operações Apito Final, Fair Play e Tempo Extra e busca desarticular não apenas os executores dos crimes, mas principalmente o sofisticado sistema criado para esconder o patrimônio milionário acumulado pela organização criminosa, utilizando empresas, profissionais liberais e pessoas sem antecedentes como fachada para dar aparência de legalidade aos bens adquiridos com recursos ilícitos.
VEJA
Sobre o Autor

0 Comentários