“Não tenho obrigação nenhuma de ceder à pressão política”, diz Abílio após atribuir derrota na votação da LDO a eleição da mesa da câmara
JB News
Por Nayara Cristina
A rejeição da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2027 pela Câmara Municipal de Cuiabá representou uma derrota política que já era esperada nos bastidores e escancarou o enfraquecimento da base de sustentação do prefeito Abílio Brunini (PL) no Legislativo. O placar de 12 votos favoráveis, oito contrários e sete abstenções não foi suficiente para aprovar a proposta, que precisava alcançar a maioria absoluta de 14 votos para seguir tramitando.
Muito além da rejeição de uma peça técnica, a votação evidenciou a crise política instalada entre o Palácio Alencastro e a Câmara de Cuiabá. A disputa pela futura Mesa Diretora, as constantes divergências entre o Executivo e os vereadores e a perda gradual de apoio ao prefeito criaram um ambiente que, há semanas, já indicava dificuldades para a aprovação de projetos considerados estratégicos pela administração municipal.
A LDO é o primeiro instrumento do planejamento orçamentário do município. É ela que estabelece as metas e prioridades da administração pública para o exercício seguinte e serve de base para a elaboração da Lei Orçamentária Anual (LOA), responsável por definir as receitas e despesas da Prefeitura. O texto encaminhado pelo Executivo previa arrecadação de R$ 5,07 bilhões em 2027, representando crescimento estimado de 3,1% em relação aos R$ 4,92 bilhões previstos para este ano.
Nos corredores da Câmara, entretanto, o clima era de insatisfação. Parlamentares reclamavam que o Executivo não aceitava qualquer alteração no projeto. Segundo vereadores ouvidos durante a tramitação, todas as propostas de emendas encontravam resistência da liderança do governo, que orientava pela manutenção integral do texto enviado pelo prefeito. A avaliação de diversos parlamentares era de que não havia disposição para construir consenso político, apenas a expectativa de que a proposta fosse aprovada exatamente como foi encaminhada pelo Executivo.
Essa postura acabou aprofundando o desgaste entre Prefeitura e Legislativo. Parte da antiga base governista deixou de acompanhar as orientações do Executivo, enquanto o grupo de oposição aproveitou o momento para demonstrar que o prefeito já não possui a maioria confortável que tinha no início do mandato.
O resultado da votação é consequência de uma sequência de conflitos políticos iniciados meses atrás. A tentativa do prefeito de interferir nas discussões sobre o Regimento Interno da Câmara, a judicialização das regras relacionadas ao quórum de votação, a defesa da reeleição da presidente Paula Calil e o embate em torno da sucessão da Mesa Diretora ampliaram o desgaste entre os Poderes.
Hoje, o grupo liderado pelo vereador Ilde Taques desponta como principal articulador da oposição ao Executivo dentro da Câmara e tem conseguido reunir parlamentares que antes integravam a base de apoio do prefeito. A disputa pela presidência do Legislativo acabou extrapolando a eleição interna e passou a influenciar praticamente todas as votações de interesse do Executivo.
Nos bastidores, vereadores afirmam que a derrota da LDO era considerada praticamente inevitável. O entendimento era de que, sem diálogo político e sem abertura para mudanças no texto, dificilmente o governo conseguiria reunir os 14 votos necessários para aprovar uma das principais matérias do planejamento financeiro do município.
Após a votação, Abílio Brunini afirmou que a principal prejudicada será a população de Cuiabá. Segundo ele, a rejeição impede que diversas diretrizes voltadas às políticas públicas sejam organizadas para o próximo exercício financeiro.
“O que deixa de existir são diretrizes importantes para áreas como saúde da mulher, saúde do idoso, autismo e diversas outras políticas públicas. Quem sai prejudicada é a população”, afirmou.
O prefeito também argumentou que os vereadores possuíam instrumentos legais para alterar o projeto sem rejeitá-lo integralmente.
“Eles poderiam apresentar emendas modificativas, substitutivas ou retirar pontos específicos. Optaram por deixar a cidade sem diretrizes orçamentárias. Acho que foi um grande erro do Legislativo”, declarou.
Questionado sobre sua responsabilidade política na construção de um entendimento com os parlamentares, Abílio respondeu que sua obrigação era encaminhar o projeto à Câmara, e não atender interesses políticos para obter votos.
“É dever meu mandar o projeto para a Câmara. Não é dever meu ceder à pressão política, apoiar quem eles querem para a Mesa Diretora ou negociar interesses pessoais para conseguir aprovação. Não tenho obrigação nenhuma de fazer isso”, afirmou.
A declaração reforça a estratégia adotada pelo prefeito de não negociar apoio em troca de projetos, mas também evidencia o tamanho do isolamento político enfrentado atualmente pelo Executivo. Nos últimos meses, vereadores deixaram de integrar a base governista e passaram a votar de forma independente, reduzindo significativamente a capacidade de articulação do Palácio Alencastro.
O desgaste ficou ainda mais evidente após a votação da LDO, quando vereadores que deixaram de acompanhar a orientação do governo foram retirados dos grupos oficiais de comunicação da base, ampliando o clima de rompimento entre Executivo e Legislativo.
A derrota da LDO passa a ser vista como um marco da nova configuração política da Câmara de Cuiabá. Mais do que a rejeição de uma lei orçamentária, o resultado demonstra que o prefeito Abílio Brunini enfrenta seu momento de maior fragilidade política desde o início da gestão e que futuras votações de interesse do Executivo tendem a encontrar uma resistência cada vez maior dentro da Casa de Leis, especialmente enquanto permanecer o conflito em torno da sucessão da Mesa Diretora e da relação entre o prefeito e sua antiga base de apoio.
VEJA
Sobre o Autor

0 Comentários