Salvador tem maioria das escolas afetada por tiroteios – 13/08/2026 – Educação


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Mais da metade das escolas públicas de Salvador foram afetadas por tiroteios, registrados em um raio de até um quilômetro, em ao menos dez dias letivos de 2025. O dado é de um estudo inédito realizado pelo Instituto Fogo Cruzado e divulgado nesta quinta-feira (13).

Das 600 escolas municipais e estaduais da capital baiana, apenas 12 não registraram nenhum dia afetado por eventos armados. Outras 249 registraram menos de dez dias letivos afetados.

Já a maioria das escolas (339) registrou mais de dez dias afetados, sendo que 133 delas acumularam entre 10 e 20 dias com tiroteios no entorno, 180 tiveram entre 21 e 40 dias e 23 delas ultrapassaram 40 dias. Uma unidade registrou tiroteios em 55 dias, o que impactou 27,5% dos 200 dias letivos previstos na lei nacional.

Procurada, a gestão do governador Jerônimo Rodrigues (PT) não comentou os dados.

O estudo analisou dados georreferenciados e mapeou 3.748 tiroteios em Salvador entre 2023 e 2025, ou seja, uma média de 3,4 ocorrências por dia. Para contabilizar os registros, o instituto usa uma coleta colaborativa via aplicativo de celular, com checagem em tempo real, além de banco de dados aberto sobre violência armada.

Do total de tiroteios registrados, 59% ocorreram em dias letivos e 40% durante o dia —grande parte deles em momentos de entrada, saída ou das aulas dos estudantes.

“Existe um problema disseminado da violência armada em Salvador, mas os dados nos mostram que essa situação impacta mais algumas escolas e territórios. Há um padrão geográfico que mostra a necessidade de um olhar especial para algumas escolas que estão sendo mais afetadas, que precisam de apoio”, diz Maria Isabel Couto, diretora de dados e transparência do instituto.

Em 2025, a Bahia ficou entre os estados com maiores índices nacionais de letalidade, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O estado tem a segunda maior taxa do país de mortes violentas intencionais, com 36,8 mil mortos a cada 100 mil habitantes, atrás apenas do Amapá.

Tem também o segundo maior índice de letalidade policial, atrás também do Amapá. No ano passado, as polícias da Bahia foram responsáveis pela morte de 1.570 pessoas, o maior número absoluto de mortes em todo o país.

O levantamento do Instituto Fogo Cruzado identificou ainda que a maior parte dos tiroteios em dias de aula deriva de intervenções policiais, registrados em 37,4% das ocorrências mapeadas. Em seguida, 32% dos casos estavam ligados a homicídios ou tentativas de homicídios, 11,1% relacionados a tentativas ou roubos consumados e 10,7% a disputas entre grupos armados —o restante não teve a motivação identificada.

“Mais de um terço dos tiroteios que afetaram as escolas no ano passado foi em decorrência de ação policial, que vem de uma decisão do Estado. Não queremos culpar ninguém, mas o Estado precisa garantir a segurança da população sem colocar a educação em risco. Ou seja, precisa ter protocolos e ações planejadas para atender melhor tanto os objetivos educacionais como os de segurança pública”, diz Couto.

A análise dos dados reforça ainda as dinâmicas da desigualdade na cidade: as escolas com maior incidência de tiroteio no entorno são aquelas situadas em regiões com população de menor renda e maior proporção de população não branca.

Em seis escolas, classificadas com situação crítica persistente, a renda média do entorno variava entre R$ 594,10 e R$ 702,59, e a população não branca estava entre 87,4% e 91,2%.

Couto destaca que essas ocorrências prejudicam ainda mais estudantes já vulneráveis, uma vez que evidências internacionais indicam que a exposição recorrente à violência dentro do ambiente escolar está associada a perdas adicionais de desempenho e à permanência na escola.

“É urgente pensar nos impactos dessas ocorrências na saúde, bem-estar e aprendizado das crianças e adolescentes. É preciso dar apoio para essas escolas mais afetadas, ajudá-las a ter um protocolo de segurança para essas situações. Os diretores dessas escolas não podem ser os únicos responsáveis por pensar em como proteger os alunos. O poder público precisa dar essa resposta.”

Neste ano, o CNE (Conselho Nacional de Educação) estabeleceu critérios para garantir o cumprimento de 200 dias letivos em escolas impactadas pela violência armada. A medida busca assegurar a continuidade das atividades educacionais e a reposição das aulas em situações que comprometem o calendário escolar.

Pelas diretrizes, cabe ao gestor do sistema de ensino, e não somente às escolas, a tomada de decisão a respeito do funcionamento ou não da unidade, “com orientações específicas para a adoção de medidas de adaptação e para reorganização do atendimento, bem como a retomada das atividades escolares de forma segura para estudantes, professores e profissionais da educação”.

O texto também prevê que, “sempre que ocorrer restrição ao funcionamento regular das unidades escolares ou a suspensão das aulas por situações diversas, o sistema de ensino deverá assegurar orientação mínima para continuidade educativa, suporte técnico, pedagógico e operacional às escolas”.



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