Sérgio Ricardo reage a plano que projeta ações até 2060 para fim do caos na água de VG , “Eu quero estar vivo para ver”
JB News
por Nayara Cristina
O planejamento elaborado para enfrentar os problemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário de Várzea Grande estabelece ações entre 2026 e 2060. O horizonte de mais de três décadas chamou a atenção do presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT), conselheiro Sérgio Ricardo, que classificou como “caótica” a realidade apontada pelo diagnóstico e cobrou um esforço conjunto para acelerar as soluções.
A manifestação ocorreu nesta quarta-feira (12), durante audiência pública promovida para discutir o Plano Municipal de Saneamento Básico, com a participação da prefeita Flávia Moretti (PL), representantes de instituições públicas e integrantes da sociedade civil.
Ao analisar o relatório apresentado pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), contratada pela Prefeitura de Várzea Grande, Sérgio Ricardo destacou que o plano prevê intervenções ao longo de 34 anos. Embora reconheça a necessidade de planejamento a longo prazo, o presidente do TCE demonstrou preocupação com o tempo projetado diante da urgência enfrentada pela população.
“A Fipe fez um estudo. Veja só: ela trata de ações de 2026 até 2060. Eu queria estar aqui em 2060, peço a Deus para estar”, afirmou.
O prazo até 2060 representa o horizonte estabelecido para a execução das ações previstas no planejamento, mas, para Sérgio Ricardo, a gravidade da crise exige resultados concretos desde os primeiros anos. Ele defendeu que o documento não seja tratado apenas como um plano de longo prazo, mas como ponto de partida para intervenções imediatas.
Segundo o conselheiro, o diagnóstico da Fipe confirma uma situação já vivenciada diariamente pelos moradores: a precariedade do abastecimento e a insuficiência da rede de esgoto. Para ele, o estudo retrata as consequências de sucessivas administrações que não priorizaram o saneamento básico.
“Eu fiz uma análise do relatório que a Fipe apresentou. A Fipe, como não poderia ser diferente, descreve o caos. Várzea Grande vive um caos, exatamente por falta de gestões que não tiveram a responsabilidade de cuidar do básico”, declarou.
Sérgio Ricardo afirmou que a crise da água atravessa gerações e não pode continuar sendo transferida de governo para governo. Em sua avaliação, Várzea Grande convive há mais de um século com dificuldades no fornecimento, situação que precisa receber uma resposta definitiva do poder público.
“Nós temos um problema de décadas, de séculos. Mais de um século e meio de Várzea Grande sem água. Isso vai chegar a um momento em que terá que acabar”, cobrou.
O presidente do Tribunal de Contas ressaltou ainda que o acesso à água não pode ser tratado apenas como uma obra de infraestrutura. Segundo ele, a ausência do serviço compromete diretamente a saúde, a alimentação e a dignidade das famílias.
“Água é saúde, água é alimentação, e não se tem. Hoje nós temos uma situação em que, pelos próprios dados da Fipe, não temos água e nem rede de esgoto na cidade de Várzea Grande”, afirmou.
Diante do cenário, Sérgio Ricardo confirmou que o Tribunal de Contas acompanhará a construção e a execução do Plano Municipal de Saneamento Básico. Ele assegurou que a instituição, incluindo seus conselheiros e o corpo técnico, estará presente para fiscalizar, auxiliar e contribuir com as medidas que forem definidas.
“O Tribunal de Contas, todos os conselheiros e a instituição como um todo estão presentes. Vai acompanhar, vai auxiliar e vai contribuir. O que estou fazendo aqui hoje é justamente isso”, garantiu.
Para o presidente do TCE, Várzea Grande não terá capacidade de solucionar sozinha um problema acumulado durante tantas décadas. Ele defendeu a participação direta do Governo de Mato Grosso e a união de forças políticas e institucionais para garantir os investimentos necessários.
“Não dá para esperar. Eu entendo que tem que haver um grande esforço, um esforço conjunto do Estado e, principalmente, do Governo do Estado”, pontuou.
Sérgio Ricardo também relacionou a precariedade do saneamento à situação econômica e social da Baixada Cuiabana. Segundo ele, Várzea Grande, Cuiabá e os demais municípios da região concentram uma parcela significativa da população mato-grossense em situação de vulnerabilidade.
“Várzea Grande é uma cidade pobre. Várzea Grande é um bolsão de miséria, como Cuiabá é um bolsão de miséria. Ninguém se ofenda comigo. Cuiabá, Várzea Grande e os 13 municípios da Baixada Cuiabana representam um bolsão de miséria do Estado de Mato Grosso. Basta ver os números”, disse.
O conselheiro afirmou que Cuiabá e Várzea Grande possuem cerca de 150 mil pessoas abaixo da linha da pobreza. Ao citar famílias que enfrentam a fome, ele criticou a desigualdade existente em um dos estados mais ricos do país.
“Tem gente que não almoçou hoje, tem gente que não vai jantar e tem gente que vai tomar café, e vai ser a semana toda assim. Mato Grosso é um estado rico para poucos e pobre para muitos”, declarou.
O presidente do TCE lembrou ainda que, durante seu mandato como deputado estadual, foi autor do projeto que criou a Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá. Agora, o Tribunal trabalha na elaboração do Plano de Metas Mato Grosso 2050, que terá um capítulo específico para os 13 municípios da Baixada Cuiabana.
Na avaliação de Sérgio Ricardo, os problemas regionais, incluindo o saneamento de Várzea Grande, exigem uma mobilização semelhante à destinada ao desenvolvimento de um estado inteiro.
“Qualquer governo que vier terá que olhar para essa região. Terá que haver um ataque aos problemas como se a Baixada Cuiabana fosse outro estado, com todas as forças políticas”, defendeu.
Com o plano projetando ações até 2060, o desafio será transformar um planejamento de longo prazo em obras e melhorias percebidas imediatamente pela população. A cobrança feita pelo presidente do TCE é para que o horizonte estabelecido no documento não signifique mais 34 anos de espera para as famílias que ainda convivem com torneiras secas e falta de coleta de esgoto.
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