A relação entre humanos e cães atravessa séculos e gerações, mas novas descobertas arqueológicas ajudam a dimensionar a profundidade desse vínculo na América pré-hispânica. Um estudo publicado recentemente na revista ScienceDirect detalhou a análise de restos mortais de cães encontrados em Castillo de Huarmey, um importante centro cerimonial ligado ao Império Wari, localizado no Peru.
A investigação científica conduzida no sítio arqueológico permitiu mapear como esses animais integravam a dinâmica social e econômica da civilização que floresceu entre 600 e 1050 d.C. Por meio da análise de centenas de fragmentos ósseos, os pesquisadores conseguiram reconstituir não apenas a presença, mas também as funções cotidianas exercidas pelos animais há mais de um milênio na região andina.
Evidências materiais e artísticas no sítio arqueológico
Para comprovar a convivência próxima entre os antigos habitantes e os animais, os especialistas se basearam em diferentes frentes de apuração material. A primeira linha de evidência envolveu registros artísticos recuperados em tumbas de elite e em áreas de sepultamento de antigos artesãos, onde foram identificados vasos e tecidos ornamentados que remetem à fauna da época.
Entre os achados mais expressivos, destaca-se uma representação esculpida que retrata um exemplar da raça antiga conhecida como Pelado Peruano. Além disso, marcas de mordidas caninas identificadas em dezenas de espécimes de camelídeos e a própria recuperação dos ossos completam o panorama que atesta a convivência diária.
Funções na rotina e identificação de raças antigas
O exame detalhado de centenas de ossos possibilitou aos especialistas reconhecer que os animais desempenhavam papéis variados dentro da comunidade. Entre as atribuições identificadas na pesquisa estão funções ligadas à caça, ao pastoreio de rebanhos, à companhia e até mesmo ao aproveitamento de carcaças, demonstrando versatilidade na interação com a sociedade Wari.
Entre os animais catalogados, três espécimes foram classificados de forma preliminar como pertencentes à linhagem do Pelado Peruano. Esse indício reforça a hipótese de que esses cães já recebiam atenção especial e cuidados direcionados desde os primeiros estágios de desenvolvimento, compartilhando o cotidiano com os pastores e suas caravanas de animais de carga.
Alimentação singular e práticas de criação no Peru antigo
Outro aspecto que chamou a atenção da equipe científica foi o padrão alimentar detectado nos filhotes analisados. Os vestígios indicam uma dieta específica baseada no consumo de recursos vegetais, sugerindo a existência de um sistema estruturado de reprodução e manejo que antecedeu a consolidação da influência Wari na faixa costeira do norte peruano.
Esses dados ampliam a compreensão sobre a presença de cães na arqueologia sul-americana e mostram como a domesticação moldou sociedades complexas no passado remoto. O avanço das análises laboratoriais continua a abrir caminhos para entender a história compartilhada entre espécies.
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