Helio Santos lança livro sobre racismo no Brasil – 19/06/2026 – Políticas e Justiça


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Helio Santos é uma das principais referências do pensamento antirracista brasileiro. Ativista, professor e doutor honoris causa pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), dedicou décadas à reflexão sobre as desigualdades raciais e os caminhos para a construção de uma sociedade mais justa.

Em seu novo livro, “14 de Maio: Lições de Resistência ao Racismo”, o autor convida os leitores a olhar para o dia seguinte à abolição da escravidão. O lançamento da obra acontece na próxima segunda-feira, dia 23 de junho, às 19h, no Itaú Cultural, em São Paulo. Nesta entrevista, Helio Santos fala sobre sua trajetória, os desafios da agenda racial brasileira e as principais ideias presentes em seu novo livro.

Professor Helio, olhando para sua trajetória, em que momento a questão racial deixou de ser apenas uma percepção pessoal e passou a ser uma missão intelectual e política?

A rigor, não busquei ser um ativista ou um estudioso da temática racial; esta que nunca me abandonou, soprando-me na cabeça desde sempre. Aos 18 anos, ao concluir o ensino médio em Belo Horizonte, onde nasci, fui sorteado com um prêmio: o livro “Kennedy e os Negros”, de Harry Golden. Guardo essa preciosidade comigo até hoje. Essa foi uma das inúmeras sincronicidades que fui acumulando ao longo da vida. Durante toda minha trajetória estive em boa companhia, pois nada fiz sozinho. Não desenvolvi uma carreira acadêmica focada na questão racial – meu campo é o da ciência da administração.

O senhor começou sua militância nos anos 1970. O que mudou no Brasil desde então e o que permaneceu quase intacto?

Hoje, há uma maior percepção do racismo pela sociedade e avanços significativos foram conquistados. Entretanto, essa compreensão se fez acompanhar por algo que por muito tempo esteve submerso: temos atualmente frestas bem visíveis do supremacismo branco. O que se manteve invicta foi a desigualdade que aqui tem cor e procedência.

O senhor está lançando o livro “14 de Maio: Lições de Resistência ao Racismo”. O título chama atenção porque desloca o olhar do dia da abolição para o dia seguinte. O que o Brasil ainda precisa entender sobre esse 14 de maio que, de alguma forma, continua presente na vida da população negra?

Minha geração de ativistas refutou desde sempre o 13 de maio. Todavia, sempre procurei trabalhar esse momento do pós-Abolição mediante uma alegoria que desenvolvi sobre o 14 de maio: o dia mais longo da nossa história e que nos alcança 138 anos depois. Muitos afirmam que a população negra foi abandonada. Trata-se de uma meia verdade. Simultaneamente, houve radical diferença de tratamento para com a imigração europeia que se expandiria na república nascente já no ano seguinte. Esse conjunto de medidas alarga insuportavelmente as diferenças entre negros e brancos no Brasil – saldo do 14 de maio que é visível a olho nu em qualquer cidade desse país onde se vá. Os indicadores são renitentemente muito desfavoráveis à população negra.

O Brasil, diante dessa alegoria precisa responder à algumas questões: (1) Como seria nosso país se houvesse sido construído de outra forma, em que as oportunidades tivessem sido de fato iguais? (2) Quais benefícios todos nós teríamos?

O senhor costuma tratar o racismo brasileiro como algo sistêmico e inercial. O que essa ideia ajuda a entender melhor sobre o país?

O racismo sistêmico não se caracteriza como um tipo específico de racismo como o institucional, estrutural ou religioso, pois é, sobretudo, um modo de observar como ele funciona no ambiente social. A sociedade desenvolve uma visão adversa à população negra e depois se vê retroalimentada por aquilo que ela própria gerou inicialmente. Trata-se de um conceito que opero na Teoria do Círculo Vicioso em que os efeitos do racismo retroalimentam as suas causas. Esses vetores do racismo devem ser observados no seu conjunto e não isoladamente. O que é sistêmico torna-se também inercial que vem a ser uma “memória” opressiva a alimentar todo o ambiente social. Quando trato o racismo brasileiro como sistêmico-inercial me refiro ao alongamento do racismo secular em virtude da memória que ele cultiva. A pergunta é pertinente, pois esse conceito sinaliza a ineficácia das ações afirmativas pontuais no Brasil pois estas não dão conta de conter esse “saldo” de racismo da memória; que é resoluto e implacável. As ações afirmativas precisam ser, igualmente, sistêmicas: encadeadas, sequenciais e multidisciplinares para serem eficazes.

Como o senhor avalia o governo Lula na agenda racial? Houve retomada institucional, com a recriação de espaços e políticas, porém muitos indicadores seguem muito duros. Na sua avaliação, a esquerda brasileira tem conseguido transformar compromisso histórico com a pauta racial em mudanças na vida da população negra?

Quando se faz um balanço preciso das políticas de igualdade racial, constata-se um inequívoco avanço. Entretanto, penso que devemos nos posicionar de maneira mais assertiva na proposição de políticas afirmativas sistêmicas e reparação histórica estruturante – algo nunca feito e pouco pensado. O governo tem canais de comunicação com o movimento negro que precisam ser melhorados. Por outro lado, temos inimigos declarados que pinçam as cotas raciais para vetá-las. A tentativa da extrema direita de Santa Catarina é uma pequena amostra do que podemos ter em um segundo governo Bolsonaro.

A pauta racial costuma ser associada à esquerda, embora existam negros com posições liberais, conservadoras ou de direita. Como o senhor enxerga a presença de pessoas negras na direita brasileira?

Quando o setor que é visto como esquerda se “associa” à pauta racial cumpre o papel de radicalizar na democracia; algo que nem sempre faz. Quanto ao conservadorismo de algumas pessoas negras, “enxergo” surpreso essa postura kamikaze. Há várias contradições, porque se elas atuarem para potencializar a sua cidadania já entrarão em colisão com os valores da direita brasileira que perdeu a vergonha de externalizar o seu racismo.

As cotas mudaram a universidade. Elas também mudaram a elite brasileira?

A presença de negros e indígenas deu às universidades um maior sentido de brasilidade; houve vários impactos, inclusive estético. Quanto à elite, persevera na tecla de reduzir os gastos sociais; eternos “vilões” do desequilíbrio das contas públicas. O movimento negro ao defender as maiorias precisa se posicionar frente à essa perturbadora escassez de inovação por parte do mainstream econômico brasileiro.

Para as novas gerações que querem contribuir com a pauta racial, qual seria sua principal mensagem? O que esses jovens devem aprender com a geração que abriu caminhos antes das cotas, antes das redes sociais e antes de a agenda racial ganhar mais espaço público? Que erro a nova geração deveria evitar?

De início, não esquecer: inexiste brindes no campo da cidadania num país tardio como o nosso; ou você conquista ou não terá. Um aprendizado valioso: Unidade nos esforços. Toda vez que unificamos forças houve avanço. Defenda suas ideias mesmo se elas forem desacreditadas. Se elas forem legítimas terão grande chance de se efetivar

O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço “Políticas e Justiça” da Folha de S.Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Helio Santos foi “14 de Maio”, de Jorge Portugal e Lazzo Matumbi.


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