Mesmo preso em segurança máxima, tesoureiro do Comando Vermelho comandava finanças da facção e movimentava milhões, revela Operação Replay
JB News
Por Emerson Teixeira
Mesmo recolhido à ala de segurança máxima da Penitenciária Central do Estado (PCE), em Cuiabá, Paulo Witer Farias Paelo, conhecido como “W.T.”, continuava exercendo papel estratégico dentro da estrutura do Comando Vermelho em Mato Grosso. É o que aponta a investigação da Polícia Civil que deu origem à Operação Replay, deflagrada na última quinta-feira (30), para desarticular o núcleo responsável pela administração financeira da organização criminosa e pelo esquema de ocultação de patrimônio milionário.
De acordo com a apuração conduzida pela Delegacia Especializada de Repressão ao Crime Organizado (Draco), a prisão de W.T. não foi suficiente para interromper sua atuação dentro da facção. Mesmo encarcerado, ele teria mantido comunicação frequente com integrantes do grupo por meio de aparelhos celulares que circulavam clandestinamente no sistema prisional. Os investigadores identificaram que, entre novembro de 2025 e março de 2026, um único chip telefônico vinculado ao investigado foi utilizado em sete aparelhos diferentes, evidenciando uma estratégia para dificultar o rastreamento das conversas e preservar a comunicação da cúpula criminosa.
As mensagens extraídas dos dispositivos revelam que W.T. continuava acompanhando a arrecadação da facção, cobrando valores, orientando operadores sobre planilhas financeiras e determinando o destino dos recursos obtidos com atividades criminosas. Em um dos diálogos analisados pela polícia, há referência ao congelamento de aproximadamente R$ 14 milhões, valor que fazia parte da contabilidade interna da organização.
As investigações mostram que a influência do criminoso ultrapassava a administração financeira. Conversas interceptadas indicam que ele também interferia diretamente nas regras disciplinares impostas pelo Comando Vermelho. Em uma das mensagens, W.T. teria determinado que Emerson Ferreira Lima, conhecido como “G.D.” ou “Gordão”, aplicasse uma punição contra um integrante identificado apenas pelo apelido de “Xereca”, acusado de sacar uma arma durante uma confraternização. A sanção imposta consistia em três meses sem consumir bebida alcoólica, evidenciando, segundo a Polícia Civil, que o investigado continuava exercendo autoridade sobre membros da facção mesmo atrás das grades.
Outro ponto considerado relevante pelos investigadores são as constantes referências feitas a “SS” e “Chapéu”, codinomes atribuídos, respectivamente, a Sandro Silva Rabelo, o Sandro Louco ou Sansão, apontado como presidente estadual do Comando Vermelho, e Renildo Silva Rios, conhecido como Chapa, identificado como vice-presidente da organização criminosa em Mato Grosso. As conversas demonstram que havia uma estrutura organizada de comando, comunicação e controle financeiro entre as principais lideranças da facção.
Durante a análise do material apreendido, a Polícia Civil encontrou ainda fotografias de armas de fogo, imóveis de alto padrão, veículos, registros pessoais do próprio investigado e informações de localização relacionadas aos bens patrimoniais que passaram a ser monitorados ao longo da investigação. Todo esse conjunto de provas fortaleceu a convicção de que existia uma sofisticada rede de lavagem de dinheiro destinada a esconder o patrimônio construído com recursos provenientes das atividades criminosas.
Foi justamente a partir dessas evidências que nasceu a Operação Replay, considerada um desdobramento direto da Operação Apito Final, deflagrada em março de 2024. Na ocasião, W.T. foi preso em Maceió (AL), acusado de utilizar o time de futebol amador “Amigos do W.T.” como instrumento para movimentar recursos ilícitos e mascarar operações financeiras da facção. Apesar da prisão, as investigações demonstraram que o esquema permaneceu ativo, passando a operar por meio de operadores externos, empresas de fachada, contas bancárias de terceiros e pessoas utilizadas como “laranjas” para ocultar imóveis, veículos e aplicações financeiras.
As medidas judiciais determinadas no âmbito da Operação Replay atingiram um patrimônio expressivo. Foram sequestrados imóveis e veículos avaliados em R$ 17.287.600, além de autorizado o bloqueio de até R$ 15.324.000 em ativos financeiros relacionados à contabilidade encontrada pelos investigadores. A Polícia Civil ressalta que os valores representam medidas patrimoniais distintas e não correspondem a um único montante recuperado.
Entre os bens alcançados estão apartamentos de alto padrão localizados em Itapema e Balneário Camboriú, no litoral catarinense, uma residência em condomínio fechado na região de Camboriú, uma casa em Cuiabá e três terrenos, patrimônio estimado em aproximadamente R$ 16,68 milhões. Também foram alvo das decisões judiciais quatro veículos, entre carros e motocicleta, avaliados em cerca de R$ 607,6 mil.
Além do bloqueio patrimonial, a Justiça autorizou prisões preventivas, mandados de busca e apreensão, recolhimento de equipamentos eletrônicos e quebra de sigilos para aprofundar a identificação dos responsáveis pelo esquema. Segundo a Polícia Civil, o objetivo da Operação Replay é desarticular definitivamente o núcleo financeiro do Comando Vermelho, impedir que recursos continuem sendo movimentados pela organização criminosa e evitar que o patrimônio obtido com atividades ilícitas seja ocultado, transferido ou utilizado para financiar novas ações da facção.
A investigação prossegue com a análise do vasto material apreendido durante as diligências. Os investigadores acreditam que novas fases da operação poderão ser desencadeadas à medida que forem identificados outros operadores financeiros, empresas e pessoas que, de forma direta ou indireta, tenham contribuído para a lavagem de dinheiro e para a sustentação econômica da organização criminosa em Mato Grosso.
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